Vida a dois

Um breve olhar sobre o relacionamento amoroso

Por: Mariuza Pregnolato

INTRODUÇÃO

A curiosidade sobre os possíveis mecanismos que levam cada pessoa a desejar viver um relacionamento amoroso e, ao mesmo tempo, as dificuldades que permeiam as relações humanas – especialmente as mais íntimas – tendendo a desgastá-las ao longo do tempo, foi a motivação central do presente trabalho, que é desenvolvido a partir de um referencial teórico central, a Psicologia Analítica, criada por Carl Gustav Jung, e complementada por idéias emprestadas também de outras correntes de pensamento, psicológicas ou não, cujas referências me pareceram oportunas e enriquecedoras.

Nesta breve incursão pelos meandros das relações humanas, limito-me a destacar alguns aspectos do encontro humano que mais me tocaram ao pesquisar o assunto.

Na primeira parte do trabalho introduzo a questão da inevitabilidade da relação na vida das pessoas e, a seguir, destaco outra característica do ser humano, que é a sua singularidade. No terceiro capítulo, faço um apanhado de alguns mecanismos presentes durante a fase da paixão e, no seguinte, discorro sobre a decepção quando da retirada das projeções anteriormente colocadas sobre o parceiro. O capítulo cinco trata da maturidade e coragem necessárias para que se inicie o processo de resgate do relacionamento, quando ameaçado, passando necessariamente pelo processo de autoconhecimento; e, no sexto, falo sobre os ganhos da relação que se estabelece entre dois seres que se buscam ao mesmo tempo em que preservam a sua individualidade.

As considerações que são feitas ao longo deste trabalho são fruto de leituras e reflexão acerca da conjugalidade, de minha experiência terapêutica no atendimento clínico individual e a casais e, fatalmente, de minha própria vivência pessoal. Trata-se de uma modesta tentativa de compreender melhor o relacionamento humano, de oferecer mais um olhar sobre esse tema, para mim, tão estimulante.

O SER RELACIONAL

O desejo de buscar um parceiro, para com ele compartilhar os mais diversos momentos da vida, é uma característica tão típica do ser humano que o simples fato de se dar destaque a essa peculiaridade pode parecer, à primeira vista, redundante. Partir da idéia de homem como ser social por definição corresponde, na terminologia junguiana, a dizer que a busca do outro é arquetípica¹.

Muitos estudos têm sido realizados ao longo do tempo, especialmente por psicólogos, na tentativa de entender a questão relacional². Apesar de estar sempre em interação, o ser humano é um eterno aprendiz em matéria de relacionamento porque cada relação é única e começa do ponto zero. No que diz respeito às relações amorosas, a questão pode tornar-se ainda mais difícil porque, à medida que evoluem, vão se transformando e exigindo um trabalho constante de superação de obstáculos por parte dos parceiros. Evidência atual desse fato é a grande quantidade de indivíduos adultos que procuram os consultórios psicológicos para tentar diminuir seu sofrimento em virtude de conflitos, frustrações ou rompimentos indesejados na área amorosa.

DI YORIO destaca: “…se a procura homem/mulher é arquetípica e, portanto, parte da constituição humana, os conflitos que aí se estabelecem também o são” (5, p.9). Surge, nesta afirmação, uma provocação para que a complementemos raciocinando que se as pessoas continuam investindo sua energia no relacionamento, a despeito das dificuldades que o estabelecimento dessas relações provoca, então a necessidade de superar essas dificuldades também é arquetípica.

O desejo de estar com o outro em geral não se satisfaz com a simples presença física de um parceiro. Trata-se de uma necessidade pessoal que se espera seja satisfeita na relação com aquela pessoa que, num dado momento, torna-se o receptáculo das projeções existentes e é idealizada como sendo o nosso complemento ideal, a própria alma gêmea.

Na prática, traduz-se por apaixonar-se. Psicologicamente, trata-se de uma sucessão de mecanismos projetivos através dos quais atribui-se ao outro a tarefa de complementar a relação realizando as aspirações que não são as suas próprias, mas do parceiro.

Do ponto de vista da procriação, o relacionamento entre as pessoas é simples. O prazer que se antecipa ao experimentar o desejo sexual no próprio corpo é suficientemente forte para determinar que a aproximação entre os indivíduos aconteça e o ato sexual seja consumado. Garante-se, assim, a perpetuação da espécie. Poderíamos descomplicar a questão dizendo que uma necessidade instintiva, natural, recorrente e inevitável de satisfação sexual seria o dispositivo através do qual a natureza impôs ao ser humano uma busca incessante e inevitável pela companhia do outro, cuja finalidade última seria afastar o risco de extinção da espécie. Mas essa resposta não explica a complexidade das necessidades afetivas do indivíduo que se encontra aquém ou além da atração física.

De fato, a necessidade do outro é inerente ao ser humano e trata-se de condição sine qua non para sua própria sobrevivência já no primeiro instante de vida. O recém-nascido humano depende completamente de cuidados de outro ser, sem os quais não sobrevive. Assim, é natural que o seio que o alimenta, essa mãe que o embala, torne-se o vínculo mais importante de sua existência nos primeiros tempos de vida³. E também é natural que, pela sua influência, o bebê comece a assimilar o meio que o rodeia e a compreender – a partir dessa referência cuja força será enorme nessa fase – como é existir, se relacionar com o outro, se relacionar com o mundo, o que é o outro, o que é o mundo.

A SINGULARIDADE DO SER

Acredita-se que amar se aprende sendo amado e que tudo começa na mais tenra infância4. Um bebê, em condições normais, que tem supridas todas as suas necessidades mais básicas como alimentação, calor, conforto, afeto, segurança e contato físico adequado, expressará sua satisfação apresentando sono tranqüilo, boa saúde e capacidade de realizar troca afetiva; retribuirá com sorrisos e movimentos os carinhos recebidos, imitará aqueles que o cercam e aprenderá, com cada novo contato visual e experimentação – melhor dizendo, descoberta – de seu próprio corpo a obter aquilo que deseja. Se o ambiente que o rodeia for saudável, possibilitando uma comunicação clara, ele assimilará, passo a passo, os elementos necessários para ir decifrando um a um todos os códigos de expressão, reagindo a eles de modo adequado. Se, ao contrário, o ambiente ao seu redor lhe oferecer constantes mensagens contraditórias ou ambíguas, ele reagirá diferentemente, apresentando-se insatisfeito e irritado com essa confusão que não lhe permite detectar um padrão ao qual possa reagir com alguma consistência e estará impedido de comunicar-se eficientemente. Neste ‘clima’ emocional, seu aprendizado será fatalmente diverso daquele relatado na situação anterior e esta criança atuará de modo condizente com a estimulação recebida, aprendendo a sobreviver da melhor maneira possível em meio às circunstâncias caóticas que a cercam.

Essas duas situações, opostas, são úteis para ilustrar como o comportamento das pessoas é fortemente influenciado por sua história de vida. Imaginemos como seriam diferentes esses dois indivíduos, digamos, na pré-adolescência, fase em que geralmente começa a surgir um forte interesse por temas relacionados à sexualidade e em relacionar-se com outros jovens, principalmente do sexo oposto. Trabalhemos com a hipótese de que teríamos dois indivíduos que viveram até os doze anos de idade interagindo com ambientes cujas características lhes proporcionassem experiências diametralmente opostas, conforme sugerido no exemplo acima. Digamos que A, o indivíduo do primeiro caso, tornou-se um jovem saudável, bastante comunicativo, capaz de dar e receber afeto com naturalidade e encarar o mundo com otimismo. É inteligente, seguro de si, independente, capaz de confiar nas pessoas e ousar novos caminhos; e que B, o indivíduo do segundo exemplo, embora igualmente inteligente, ao contrário, sente-se confuso, nunca sabe realmente se é bem aceito ou se aquilo que compreendeu poderá ter algum significado oculto; não é capaz de ser afetivo porque teme ser mal interpretado; é tenso e vive constantemente num estado de expectativa ansiosa; é inseguro e desconfiado, muito dependente da aprovação alheia, colocando-se sempre num estado de alerta defensivo, de modo a canalizar muito de sua energia na administração de sua angústia, da qual nem sequer tem consciência. A e B são jovens e vivem um momento crucial de seu desenvolvimento, mal dando conta das transformações que ocorrem em seus corpos, tanto interna quanto externamente, bem como no âmbito psicológico.

A adolescência é o momento de rever conceitos e valores, contrapor-se às normas e associar-se a outros grupos, rejeitando momentaneamente o modelo familiar na busca de uma identidade própria. É no meio dessa sopa de emoções que costumam ocorrer os primeiros encontros amorosos. Pela primeira vez, o jovem vai se apaixonar, buscando completar-se no outro.

É fácil imaginar que a forma de expressar amor de A será bastante diferente da de B e que, caso se encontrem e se apaixonem⁵, o relacionamento de ambos será possivelmente repleto de conflitos de ordem afetiva. Essas diferenças poderão gerar tanto um enorme sofrimento – podendo até inviabilizar a continuidade da relação – como também pode, o casal, encontrar saídas criativas para suas crises, visto que cada relacionamento é único e imprevisível. Se o sentimento que um nutrir pelo outro for bastante sólido e se ambos tiverem desenvolvido características de personalidade que possibilitem a tolerância e o investimento afetivo necessários para trabalharem com dedicação no sentido de salvarem seu relacionamento, será possível vislumbrar a possibilidade de uma relação satisfatória e estável. Valorizar o sentimento sincero que os une, colocando esse amor em primeiro lugar, de modo que cada um vá se conhecendo melhor e usando os conflitos existentes para seu próprio desenvolvimento pessoal será o caminho para o autoconhecimento. Este, por sua vez, resultará num ganho de qualidade e ampliação de possibilidades, tanto no âmbito pessoal quanto na vida do casal, conforme for sendo alimentada pelo enriquecimento individual compartilhado.

A intensidade, o ritmo e a profundidade desse processo obedecerá às possibilidades de cada parceiro e será diferente para cada um deles, conforme explica JUNG:

“…mesmo o melhor casamento não é capaz de apagar as diferenças individuais e tornar os estados dos esposos absolutamente idênticos. Normalmente, um deles resolve seu caso no matrimônio mais depressa do que o outro. Alguém que se baseia num relacionamento positivo com os pais encontrará pouca ou nenhuma dificuldade em relacionar-se com o outro; entretanto, o outro cônjuge poderá sentir-se impedido, porque está preso aos pais por uma ligação mais profunda e inconsciente. Por isso, apenas mais tarde conseguirá adaptar-se completamente; mas, como atingiu esse estado com maior dificuldade, procurará talvez ater-se a ele por mais tempo.” “…fatores que causam dificuldade típica nesse momento crítico são, por um lado, a desigualdade de tempo no desenvolvimento e, de outro, o alcance da personalidade espiritual…” (7, p. 199).

O exemplo acima visa a deixar presente e claro que cada pessoa cresce em diferentes ambientes, ficando o tempo todo à mercê de diferentes estímulos, de modo que tornar-se-á um ser absolutamente único. E ainda que o ambiente e, por conseqüência, as estimulações não sejam tão flagrantemente diferentes como no exemplo citado, a vivência de cada ser humano será diferente da do outro, fazendo com que cada indivíduo seja uma pessoa inédita, singular em sua história, na forma como vê e sente o mundo e no modo de reagir a ele.

Algumas pessoas costumam questionar essa afirmação argumentando que muitos pais educam seus filhos de maneira igual, ou que gêmeos de pais assim poderiam ser idênticos, mas isso não corresponde à realidade porque a experiência de cada um será sempre única: eles não mamarão no mesmo seio ao mesmo tempo nem com a mesma voracidade. Não nasceram pela mesma mão ao mesmo tempo, não receberam o mesmo olhar no mesmo instante e cada uma dessas vivências e todas as que se seguem a elas são elementos estruturantes básicos do desenvolvimento da criança. Isso para não falar das peculiaridades que cada indivíduo já traz em si ao nascer, possivelmente herdadas geneticamente, discussão esta que não caberia nos limites deste trabalho.

Temos então que, embora tão parecidos às vezes uns com os outros, somos todos essencialmente distintos e precisamos lembrar-nos sempre que nenhum rótulo pode nos classificar de modo a abarcar todo o nosso ser, porque não caberíamos completamente numa definição que já existe para outro fim ou outro alguém. A única possibilidade de identificação de alguém é o seu próprio nome. Qualquer outro rótulo ou acréscimo será secundário e redutor. Isso vale para cada um de nós. Isso vale igualmente para cada uma das demais pessoas. E vale para hoje, para ontem e para amanhã porque há outro aspecto nesta discussão que é essencial: somos seres vivos, em constante processo de desenvolvimento, aprendizado, transformação. Tudo o que sabemos de nós, apesar de ser bastante, está muito longe de abarcar o todo que somos e refere-se tão somente àquilo que vivemos até este momento; não alcança o que viremos a ser. Desconhecemos todo o nosso futuro e conhecemos pouco de nosso processo interno até agora vivido.

Pensar isto talvez ajude-nos a compreender mais facilmente o quanto é impossível pretender conhecer totalmente outra pessoa, por mais próxima que seja de nós. E nos dá a certeza cristalina de que sempre, e em todas as situações relacionais possíveis, estamos nos relacionando com um ser que é único.

Essa perspectiva – a de que as pessoas que amamos e cujas atitudes e comportamentos muitas vezes tão familiares são, na verdade, indivíduos a serem conhecidos o tempo todo – é de grande utilidade para compreendermos porque ocorrem tantas dificuldades nos relacionamentos, especialmente nas relações amorosas. Somos iguais na necessidade de nos relacionar, o que nos aproxima um do outro, mas distintos em nossa referência pessoal, o que dificulta a manutenção da harmonia na relação.

JÁ TE CONHECIA, POR ISSO TE ENCONTREI

Ao falar sobre as características do relacionamento psicológico dentro do casamento, JUNG observa que o jovem – e mais a mulher do que o homem – já tem, ao atingir a idade adequada para o casamento, a consciência do “eu” recentemente emergida do que ele chama nebuloso inconsciente inicial (7). E acrescenta que, para tornar-se consciente de si mesmo, o indivíduo tem, obrigatoriamente, que distinguir-se dos outros. Essa distinção é condição indispensável para o surgimento de um relacionamento.

Mas ter consciência do “eu” não significa, na prática, total consciência de si. Como já foi dito, temos um conhecimento incompleto tanto de nós mesmos quanto dos outros, de modo que nossa compreensão dos motivos que nos movem – e mais ainda dos motivos que movem as demais pessoas – é insuficiente. Por esta razão, muitas vezes somos levados a agir impulsionados apenas por nosso inconsciente, embora tendo a impressão de que sabemos o que estamos fazendo.

Por isso, quando nos apaixonamos, tendemos a acreditar inicialmente que encontramos a pessoa ideal, possuidora de todos os atributos capazes de despertar em nós admiração, amor e desejo, satisfazendo totalmente as nossas aspirações amorosas. O que não sabemos, nessa fase, é que alguns desses atributos que julgamos serem daquela pessoa são, na verdade, conteúdos inconscientes da nossa própria psique que projetamos na pessoa amada. Há alguma distinção, isto é, somos capazes, em algum grau, de reconhecer que estamos nos relacionando com outro ser, mas há aí uma mistura emocional com o outro porque nós o vemos através das lentes da paixão. Em outras palavras, não vemos a outra pessoa como ela é, mas como a pessoa que desejamos que ela seja.

MENGHI destaca, em seu artigo O casal útil, que “a paixão é a possibilidade de amar aquilo que não nos é permitido amar em nós mesmos, por ser incompatível com nossa imagem já estruturada”, o que “…significa limitação de nossa consciência” (In: 1, p. 60).

Numa situação em que a paixão é recíproca, esse processo de projeção maciça ocorre simultaneamente com ambas as pessoas envolvidas. É próprio da paixão provocar o preenchimento das expectativas e fantasias que cada um tinha em relação a esse encontro. Nesse momento, as diferenças individuais não têm nenhuma relevância e, muitas vezes, passam totalmente desapercebidas pela consciência. Trata-se do encontro com aquele ser com quem sempre se sonhou, da realização de um desejo há muito tempo acalentado e, portanto, os amantes não vão mesmo interessar-se em entender o que se passa, mas simplesmente vivenciar a magia que os une e lhes dá a maravilhosa sensação de completude, infelizmente temporária. Segundo DI YORIO, o que ocorre é que “o indivíduo que não consegue tomar para si aquilo que constitui parte de seu mundo interno, fica perdido de si mesmo, buscando achar-se no outro” (5, p. 21).

Essa busca poderá revelar-se terrivelmente frustrante, ao final, se o indivíduo não compreender que é dentro de si que ele precisa elaborar a inteireza do seu ser, conscientizando-se de que jamais esse processo poderá ocorrer, de forma duradoura, com alguém de fora. E isso se obtém através de um constante processo de autoconhecimento, ao qual JUNG deu o nome de individuação⁶. Mas, por tratar-se de um caminho árduo, a ser trilhado individualmente e, às vezes, doloroso mesmo, as pessoas tendem a entregar-se às paixões de maneira inconsciente, buscando em sucessivas relações a felicidade perdida na relação anterior.

Essa busca é sempre inconsciente, como o são também as projeções colocadas sobre o outro que, para recebê-las, certamente apresenta características pessoais que propiciam esse engate tão sincrônico e complementar. A sensação que costumam ter os apaixonados é a de terem encontrado a pessoa ideal, experimentando momentos indescritíveis de extrema felicidade, em que a entrega é total e o apaziguamento interno é tal que faz com que sintam-se em paz com a vida. Estão completos. E o desenrolar da história obedecerá a disposições internas de ambos os parceiros, que vivem sob a influência de vários arquétipos, especialmente da anima e do animus, que representam os polos opostos do ego da mulher e do homem na vida adulta.

A anima constitui o aspecto feminino na psique masculina e é a imagem, a síntese que ele formou dentro de si a respeito do feminino, a partir de todas as experiências que ele já teve de mulher, predominantemente com a figura materna. E o inverso refere-se ao animus, em relação à psique feminina.

Esses arquétipos têm aspectos positivos e negativos⁷ e vão influenciar profundamente a qualidade da relação em função da forma com que são vivenciados. A projeção do animus e da anima sobre outra pessoa altera a percepção que se tem dela porque o indivíduo tenderá a interpretar o outro a partir de sua própria referência, excluindo a pessoa real. À medida que o tempo vai passando, porém, e a paixão esfriando, o outro verdadeiro começa a emergir.

Psicologicamente falando, o indivíduo vai tomando consciência das projeções que realizou. Essa fase é fundamental para a relação e irá determinar a continuidade ou não do relacionamento.

ENCONTRO COM O DESCONHECIDO

Passada a fase do relacionamento amoroso em que os parceiros encontravam-se encantados um com o outro, segue-se um momento em que outras descobertas acontecem, de modo a denunciar que o paraíso em que pensavam viver até então está menos acessível. A percepção, antes anestesiada pelo enlevo da vivência apaixonada, volta a aguçar-se, permitindo a identificação de sinais antes negligenciados. Desta forma, cada parceiro começa a ver o outro mais realisticamente, identificando nele elementos que passaram desapercebidos até então. A idealização começa a ceder lugar para o outro tal como ele é – na medida em que vão sendo retiradas as projeções – e esse confronto traz conflitos que terão conseqüências sobre o relacionamento como um todo.

Trata-se de um processo saudável e necessário que, se bem vivenciado, tornará possível a continuidade da relação de um modo mais profundo e maduro. Envolve muita frustração e sofrimento porque o indivíduo poderá sentir-se ludibriado ou traído ao perceber que já não tem diante de si um ser perfeito, sua alma gêmea para completá-lo.

NICOLÒ entende que a idealização é um mecanismo inevitável, além de ser essencial na situação de apaixonamento. Para este autor, a fase da paixão traduz-se numa oportunidade de crescimento e enriquecimento, tanto pessoal quanto da relação. E acrescenta:

“A idealização (que se expressa, por exemplo, em frases como ‘É a mulher da minha vida’, ‘Encontrei o príncipe encantado’) que permite e fundamenta a constituição do casal, em situações normais, cede lugar a uma oportuna desilusão. A desilusão não se revela destrutiva porque continua a manter, de forma modulada, o investimento recíproco, embora deixando um espaço oportuno para o exame da realidade. Essa modulação do investimento recíproco realiza-se graças a uma redução da idealização e a uma retirada parcial das projeções que cada um dos parceiros fazia no outro. Isto é, cada qual assume como sua uma parte dos aspectos ideais que antes projetava e esperava encontrar no companheiro”. (In: 1, p. 85).

Cada pessoa reagirá a essa experiência com o seu padrão relacional, isto é, seu modo próprio de ser, construído a partir de sua história de vida e que gerou um sistema interno de crenças e valores sobre relacionamento afetivo. O processo de transformação do relacionamento também será fortemente influenciado pelo grau de maturidade psicológica de cada um e pelo grau de consciência e autoconhecimento adquirido sobre sua própria dinâmica psíquica. A capacidade de compartilhar angústias e anseios, bem como a intensidade do afeto que nutrem um pelo outro também são fatores importantes no processo de construção de uma relação saudável.

A participação do inconsciente está presente o tempo todo ao longo de nossa vida, exercendo interferência em cada processo psíquico, em maior ou menor grau. JUNG afirmava que as pessoas que menos conhecem o seu lado inconsciente são aquelas que mais influência recebem dele (6). Isso porque conteúdos inconscientes, carregados de energia, atuam e determinam direções dadas à nossa vida. Assim, à medida que o indivíduo vai integrando à sua consciência conteúdos anteriormente inconscientes, deixa de estar à mercê deles, podendo exercer escolhas.

Segundo DI YORIO (5), o processo de individuação será favorecido se forem criadas condições para que conteúdos inconscientes se apresentem à consciência e sejam elaborados dentro da dinâmica da conjugalidade. Para essa autora, a possibilidade de ocorrência de confronto com a sombra⁸ é fundamental para o indivíduo e para a qualidade do relacionamento afetivo, pois abre um caminho para que cada cônjuge restabeleça, cada vez mais profundamente, a conexão com seu padrão pessoal, muitas vezes rejeitado.

Na prática clínica da psicoterapia de casais são comuns os relatos de pessoas que se sentem decepcionadas com a descoberta de facetas, na personalidade do parceiro, que não lhe agradam. É o caso de uma paciente que, durante a sessão, diz estar desagradavelmente surpresa por constatar que o cônjuge não é mais, nem de longe, o ser encantado que ela conhecera no início do relacionamento. Relata que, naquela época, ele mostrara ser um cavalheiro, amante ardoroso e ouvinte atento, fazendo-a sentir-se a pessoa mais amada do mundo. Segundo ela, tudo desmoronou quando percebeu que ele não tinha modos à mesa e que seu comportamento anti-social estava afastando-a do convívio com os seus antigos amigos. O marido, por sua vez, relata sentir-se pressionado a preencher as carências afetivas que, de repente, descobriu naquela garota que até então parecia ser super-resolvida, independente e agradável e que agora vive insatisfeita, queixosa e reivindicadora, revelando-se muito menos atraente e desejável do que antes.

Trata-se, aqui, da possibilidade de aceitar aquilo que é finalmente visto no outro, por tratar-se de conteúdo reais daquela pessoa, por serem partes integrantes de seu ser. Estamos falando de, ao invés de sentir-se pessoalmente afrontado pela decepcionante descoberta de que o outro possui também alguns ‘defeitos indesejáveis’, sermos capazes de voltar o olhar para nós mesmos e perguntarmos onde é que está doendo, em nós, a constatação da imperfeição do outro.

Esse movimento maduro – de questionar-se, ao invés de simplesmente projetar as próprias frustrações no outro – produz a oportunidade de se relativizar a influência daquele elemento indesejado no todo do relacionamento, atribuindo-lhe a importância devida. Funciona como uma trégua num momento de impasse, um intervalo bem-vindo para que se possa proceder à necessária assimilação de elementos novos na dinâmica da relação, ao mesmo tempo em que facilita-se a integração de conteúdos inconscientes na própria psique, redundando em maior conhecimento de si.

É o momento de tomar consciência de que essa pessoa que temos ao nosso lado, até agora querida, não é tão transparente quanto imaginávamos. Possui meandros e particularidades que desconhecemos e características que ela mesma ignora – e o mesmo ocorre conosco! – queiramos ou não aceitar esta realidade. E podemos abrir a possibilidade a conhecê-la melhor, nesse processo, conhecendo mais sobre nós mesmos, revelando-nos, também para ela, muito mais integralmente do que até então.

SE EU ME CONHECER, PODEREI ME AMAR

Admitir que o obstáculo para a nossa felicidade reside, ainda que em parte, dentro de nós mesmos é uma das concessões mais difíceis de se fazer porque nos tira do confortável lugar de vítima. Uma vítima não precisa olhar para as próprias motivações porque vê o responsável pelas suas feridas como um vilão que vive fora de si.

Nas relações amorosas, este mecanismo ocorre mais ou menos assim: enquanto acusamos nosso parceiro de insensível, egoísta, grosseiro, ou seja lá o que for que lhe atribuamos para justificar nosso descontentamento, alimentamos a secreta esperança de que deve existir alguém mais adequado do que ele para nos fazer feliz, faltando apenas encontrar a pessoa certa. Desse modo, o único defeito que reconhecemos em nós mesmos é o de ter cometido um engano na escolha do parceiro.

Com essa atitude, fica fácil e até lógico decidir pelo término do relacionamento no momento em que ele começa a perder o encanto inicial. Partimos para uma nova investida, tornamo-nos candidatos a uma nova paixão, carregando como saldo da relação anterior uma carga maior ou menor de sofrimento, dependendo do grau de envolvimento e entrega havido. Ao adotarmos essa atitude, retiramos, do parceiro que acabamos de abandonar, a projeção da alma gêmea – a metade perfeita que nos faltava – e a retemos conosco até aparecer um outro alguém que possibilite uma nova projeção. Então nos apaixonamos de novo e, outra vez, revestimos o recém-chegado parceiro de uma capacidade que não pode ser realmente dele: a de ser o nosso complemento perfeito. E projetando nele todos os nossos anseios, recomeçamos a viver um encantamento que, por ser auto-referente ao mesmo tempo em que é relacional, dificilmente durará. E é justamente quando o encantamento acaba que a verdadeira relação pode se iniciar.

É possível interromper esse círculo vicioso de paixão-decepção-separação-nova paixão, se houver um investimento consciente de energia psíquica no sentido de se autoconhecer para compreender qual a dinâmica presente em nossos relacionamentos. Trata-se de uma atitude mais madura, que não se obtém a partir de uma simples decisão do ego, como pode parecer à primeira vista. Exige um certo lastro emocional, uma disponibilidade interna para suportar o confronto com a própria sombra. Essa disposição para crescer pode – e deve – ser ativada no momento em que a relação começa a se modificar, quando percebe-se que algo não vai bem. Consiste em parar para vivenciar os sentimentos que estão se fazendo presentes, com perguntas simples, nem por isso pouco profundas, cuja finalidade é fazer contato com os próprios sentimentos, muito mais do que com a razão. São perguntas do tipo: O que é isso que estou sentindo? Como foi que se instalou em mim essa sensação? Em que outro(s) momento(s) da minha vida já senti isso? Desde quando estou assim? O que isso me lembra? Que desejo essa sensação suscita em mim? Posso falar sobre isso com o meu parceiro? Será que ele também sente isso? Posso perguntar-lhe como está sendo para ele essa nossa experiência juntos? Sou capaz de reconhecer, admitir e expressar o que sinto? Sou capaz de compartilhar as sensações que não entendo? É possível que, ao compartilhar a sensação (des)agradável que tenho, eu venha a me sentir mais confortável do que estou agora? Como me sinto em relação a essa possibilidade?

Esses são apenas alguns exemplos das inúmeras questões que podem ser formuladas para nós mesmos num momento de angústia, conflito, enfim, quando ocorre qualquer tipo de sofrimento. A finalidade dessa varredura interna é possibilitar uma introspecção que valide a emoção que se tem, seja ela de que ordem for, conhecendo-a mais de perto, apropriando-se dela e recebendo-a como algo importante, para ser olhada com todo o respeito possível.

Nesse processo, muitas vezes nos surpreendemos com a sensação de leveza que advém após o exercício e vivência das próprias sensações, especialmente quando somos capazes de expressá-las e/ou compartilhá-las, por tratar-se de validar conteúdos até então desvalorizados ou inacessíveis. Estes ganham, então, uma beleza antes invisível e podem, a partir daí, ser aceitos e, portanto, exibidos. De empecilhos, podem transformar-se em valiosos instrumentos. Por exemplo, se tomamos consciência de que abrigamos um incômodo sentimento de inferioridade, podemos trabalhar dentro de nós mesmos essa questão buscando compreender melhor como isso ocorre e como nos afeta. Nesse processo, poderemos evitar que a responsabilidade por nos sentirmos desvalorizados recaia sobre nosso parceiro.

Em outras palavras, uma vez dispostos a enxergar, admitir e elaborar essa experiência internamente, estamos nos fortalecendo e despotencializando seus efeitos sobre nós. Aprendendo a amar a nós mesmos, na medida em que estamos validando vivências de nossa própria história, possibilitamos a reconstrução de um jeito de ser mais pleno, aceitando-nos tal como somos.

Às vezes não é possível, para o casal, lidar com seus conflitos sem a ajuda de um psicoterapeuta. A terapia de casal é altamente indicada quando o nível de tensão atinge proporções em que o diálogo fica comprometido ou inviável porque cada parceiro está, de certa forma, perdido na sopa de seus conteúdos emocionais. Esse é o momento para se buscar a recuperação das partes não reconhecidas do eu, bem como efetuar o resgate dos sentimentos e a percepção de funções que estão indiscriminadas ou alienadas na própria pessoa. Para CALIL,

“o casamento é parte do ciclo de integração e discriminação do eu, a realização concreta do processo da dessimbiotização iniciada durante a infância e que atinge o seu ponto crítico durante a adolescência “(2, p.149).

A possibilidade de poder mergulhar nessa experiência pode resultar num aprofundamento significativo da relação amorosa, na medida em que a imagem de cada parceiro será libertada das projeções acerca de sua pretensa responsabilidade pelas dificuldades do outro, como exemplificado anteriormente.

Assumindo-se a responsabilidade pela elaboração dos próprios conflitos internos, que vão sendo trazidos para a consciência, ganha-se autoconfiança e elevação da auto-estima. SATIR, em seu trabalho A mudança no casal, afirma que “uma relação sadia só pode se instaurar entre duas pessoas que se sintam de igual valor, uma em relação à outra”, que sejam capazes de “construir uma relação verdadeiramente nova, fundamentada em dois indivíduos e não nas projeções recíprocas” (In: 1, p. 31, 36).

O relacionamento afetivo, quando começa a dar sinais de saturação, em geral está pedindo por transformação, aprofundamento nas questões de conflito. Isso ocorre porque a vivência a dois envolve entrega, autoconhecimento, compartilhamento, troca afetiva, um olhar generoso para consigo mesmo para, então, estar livre para enxergar o outro como ele é.

SE EU ME AMAR, NÃO PRECISAREI MAIS DE VOCÊ (ENTÃO PODEREI TE AMAR DE VERDADE)

Embora alguns conflitos do casal sejam um efeito da dinâmica que se estabeleceu na própria relação, evidenciando a singularidade do encontro de dois seres também únicos, a maior parte dos obstáculos a um bom entendimento conjugal tem sua origem em etapas bastante primitivas da vida de cada um dos parceiros, dificuldades estas ainda não eficientemente elaboradas. Comenta DI YORIO:

“… em nosso trabalho clínico, nós nos deparamos, com muito maior freqüência, com casos em que o sofrimento dos casais e as defesas por eles empregadas para lidar com esse sofrimento têm suas raízes em situações psíquicas tão arcaicas que remetem o indivíduo àquelas ansiedades ligadas ao período de dependência total, quando eram bebês na relação primal com seu primeiro objeto de amor. O casamento, através da vivência de dependência mútua inerente à sua condição, pode reinstalar, em graus variados, ansiedades que se originaram naquele período do desenvolvimento. É a partir dessas vivências que o bebê retira o alimento de que necessita para sua evolução, favorecendo o estabelecimento e a manutenção de sua identidade”(…)“A vivência de aniquilamento que o bebê experimenta pode obrigá-lo a uma ‘organização na direção da invulnerabilidade’, que, mais tarde, aparece na vida do adulto através de defesas que o protegerão de experimentar novamente aquelas ‘ansiedades impensáveis’ eliciadas no período pré-verbal na história do indivíduo” (5, p. 29, 31).

Nem sempre a experiência nos relacionamentos oferece grandes dificuldades, especialmente quando a sua existência não adquire grande importância na vida das pessoas. Relacionar-se de forma descompromissada com o outro não é uma tarefa muito complexa para a maioria das pessoas e pode dar-se até casualmente, sem que grande empenho seja necessário por parte dos envolvidos. Mas quando trata-se de um envolvimento mais profundo – em que os parceiros optam por viver juntos, como numa relação amorosa, seja dentro ou fora do casamento – a própria ânsia pela manutenção do relacionamento, em geral, pode acarretar uma certa dependência do afeto, do cuidado do outro.

Deparam-se, então, com as diferenças individuais, que pedem um trabalho conjunto de aceitação recíproca. Relacionar-se implica em aprender a lidar com o diferente permitindo que ele siga sendo diferente. MATURANA (8) aborda essa questão afirmando que amar implica em “aceitar o outro como um legítimo outro”.

Se dependemos de um determinado tipo de comportamento de nosso parceiro para que nos sintamos felizes e amados por ele – como, por exemplo, que ele nos olhe carinhosamente enquanto lhe contamos sobre o nosso dia no trabalho – , como nos sentiremos quando ele não estiver, por qualquer motivo que seja, disposto a preencher nossas exigências afetivas e se mostrar mais reservado, preocupado com questões outras que não somente o nosso bem-estar?

Conforme foi mostrado no capítulo anterior, uma questão afetiva ainda não resolvida dentro de nós precisa ser elaborada por nós, para que possamos nos sentir felizes e minimamente preenchidos de afeto, a despeito do estado de espírito do nosso parceiro. Se ele precisa de um tempo para elaborar questões suas consigo mesmo, esse trabalho também só poderá ser feito por ele mesmo e, talvez, durante a fase de introspecção de que ele necessita, o espaço destinado ao nosso relacionamento fique algo reduzido. Precisamos procurar contar apenas conosco nesse momento, o que só seremos capazes de fazer se estivermos cuidando muito bem de nós mesmos.

Um dos maiores ganhos que obtemos ao olhar para nossas próprias dores, com coragem de reconhecê-las e trabalhar com elas internamente, é o desenvolvimento de cada vez mais recursos internos para seguir em frente com maior liberdade, reduzindo a dependência de situações e pessoas. Não é simples, nem fácil, nem é uma trabalho que termine. É um processo que deve durar a vida toda porque a cada nova experiência de relação, novos conteúdos internos e complexos já instalados são ativados, requerendo um trabalho contínuo de autoconhecimento e desenvolvimento emocional. E o ganho abrange o ser em todas as suas manifestações.

O relacionamento conjugal entre duas pessoas que se amam merece o trabalho individual de autoconhecimento, merece que cada um busque em si, em primeiro lugar, a origem da sua dor, respeitando o outro como alguém que também tem muito a trabalhar em si mesmo, mas que, mesmo não sendo perfeito – porque a própria idéia de perfeição é de caráter subjetivo, está impregnada de projeções – é único, capaz, amável e pode prescindir tanto da proteção quanto das exigências do parceiro, escolhendo-o pelo que ele é, não porque lhe serve.

Uma pessoa bem resolvida internamente, ao contrário do que se poderia pensar, não é aquela que não tem problemas. É aquela que não finge não ter problemas. Não está sempre feliz, até porque isso não é possível, mas não responsabiliza ninguém por suas dificuldades, vivenciando-as de modo a responsabilizar-se pela construção de sua própria vida, sem medo de sentir medo. É aquela que, se sair de uma relação amorosa, poderá estar machucada e sofrerá em si a dor da perda, mas se reestruturará a partir daí, tornando-se mais forte para uma nova experiência.

Não precisará depreciar os momentos vividos, nem entregar-se a jogos manipulatórios ou mecanismos de defesa perversos, autodestrutivos ou impeditivos de novas paixões. Não alimentará rancor, ódio ou sentimento de vingança. Sentirá frustração e dor durante algum tempo, é verdade, mas elaborará dentro de si a possibilidade de superar as próprias angústias, restaurando a disponibilidade para uma nova relação. Estará pronta para amar novamente, para entregar-se, porque sabe que pode contar consigo mesma e não precisa ter medo do amor. Sabe que, se houver sintonia com o parceiro, será muito bom. Se tiver que acabar, tem uma estrutura interna capaz de superar o sofrimento daí advindo. Por isso não fica paralisada no medo de sofrer, sente-se livre para entregar-se ao novo, na expectativa de um encontro feliz.

A pessoa que ama a si mesma é mais livre para amar o outro. Não precisa tanto dele, tem a si mesma, na falta dele. Não escolhe o parceiro apenas para que ele preencha suas lacunas, para que diminua seu trabalho ou a faça sentir-se útil. Não depende dele, quer estar com ele. Não precisa tanto dele, ela o escolhe. É tão livre que não sente-se obrigada a demonstrar o seu amor. Demonstra-o, no entanto, melhor do que de qualquer outro modo possível: espontaneamente, sem exigências infantis, apenas se satisfazendo em receber o outro como é, ao mesmo tempo em que se expressa como é. E, nos momentos difíceis, dá o melhor de si pela relação, dentro das suas possibilidades.

O mais difícil para a conquista dessa autonomia, segundo DI YORIO, é desfazer-se do sentimento de dependência infantil, para onde o indivíduo volta-se sempre que se sente só e desamparado na vida. Para essa autora,

“Tornar-se autônomo permite que o outro conquiste sua autonomia, algo que, para o jogo complementar neurótico dos casais, é um verdadeiro insulto. Autonomia é tomada como sinônimo de abandono, desinteresse, egoísmo. A perspectiva de autonomia traz muita insegurança, porque, uma vez autônomo, é preciso se sustentar emocionalmente e ser capaz de assumir auto-responsabilidade pelos sucessos e insucessos resultantes dos próprios desejos e condutas. Ser dono de si mesmo costuma ser muito pesado e, freqüentemente, estamos sempre prontos para achar um responsável por nossas frustrações” (5, p.112).

Uma busca em que se esteja comprometido consigo mesmo e com o outro – enquanto houver a crença de que a relação vale a pena – em que haja amor e muita persistência são os ingredientes necessários para se chegar a essa fase do relacionamento. Essa mesma autora acredita que são os sobreviventes dessa luta que conseguem, juntos, ver a relação a dois como uma busca existencial, ao invés de fixar-se nas referências estereotipadas presentes nos valores sociais e econômicos. São pessoas que saberão valorizar a grandeza daquilo que foram capazes de conquistar. Sabem que a cada dificuldade vencida, novas possibilidades de comunicação e resolução mútuas foram acessadas e estarão disponíveis para dificuldades futuras, que certamente ocorrerão, sem se apresentar como armadilhas, mas como novos desafios, passíveis de serem vencidos através de caminhos confiáveis.

Na visão de WILLI sobre o casamento, apresentada num interessante trabalho intitulado A construção diádica da realidade (In: 1, p. 38) cada parceiro – mas juntos nessa empreitada – deverá tentar obter o grau de liberdade e independência necessário para que a relação continue viva e, simultaneamente, abrigue possibilidades de desenvolvimento pessoal.

A experiência de viver requer que desenvolvamos nossa habilidade na administração de conflitos porque estes são inevitáveis. A relação amorosa, tão importante para colorir nossas vidas, é um processo que possibilita um aprendizado contínuo, sobre o outro e sobre nós mesmos, em meio aos obstáculos que vão surgindo.

Enfrentar problemas, compromissos e encontrar saídas satisfatórias exige criatividade. Separações e reconciliações podem fazer parte desse processo e constituírem dolorosos percalços, além de oferecerem riscos, mas avivam a convivência. No final das contas, e sempre, há que se lembrar que cada relação – assim como cada indivíduo – é única e sua história seguirá em construção enquanto cada parceiro sentir que vale a pena seguir construindo.

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 1 – Arquetípico, neste contexto, refere-se a comportamento comum a toda a humanidade, desde todos os tempos.

2 – É muito grande a quantidade de material publicado, notadamente na área do relacionamento amoroso, com as mais variadas propostas, desde pesquisas de comportamento até estudos de psicologia profunda, de teses acerca das motivações individuais ou coletivas a manuais que se propõem a ensinar o ser humano a capacitar-se para obter relacionamentos mais harmoniosos ou prazerosos. Recentes estudos, realizados por autores interessados no aprofundamento da questão relacional de modo mais amplo, apresentam idéias interessantes, concebidas a partir do referencial sistêmico, como é o caso de Fritjof Capra, físico austríaco e autor de várias obras sobre o pensamento sistêmico. Segundo esse autor, a todos (e ele, aqui, não se limita ao reino animal) os seres do universo é vital a necessidade de relação, porque cada um deles, sem exceção, ocupa um lugar na ‘teia da vida’. Ao homem, por ser dotado de consciência, coube a difícil tarefa de compreender esse sistema de relações, da qual ele vem se desincumbindo de modo no mínimo medíocre, já que aprendeu a construir dispositivos de destruição em massa e vem utilizando-os violentamente contra seus semelhantes (3).

3 – Tanto seio quanto mãe, neste caso, referem-se à figura cuidadora nos primeiros meses de vida da criança, independente de seu sexo, bem como da existência ou não de grau de parentesco entre ambos.

4- Vários autores defendem a idéia de que esse aprendizado tem início já dentro do útero materno. Nessa direção, por exemplo, Colman & Colman afirmam que as mulheres “…têm uma grande abundância de hormônios do apego circulando pelo corpo…” (4, p.16).

5 – A escolha do parceiro dá-se a partir de influências inconscientes e instintivas, de uma infinidade de formas. Segundo Jung, os motivos inconscientes são tanto de natureza pessoal quanto geral, refletindo sempre aspectos da educação recebida (7).

6 – Processo em que o indivíduo trabalha constantemente para elaborar seus conflitos internos de modo a promover a integração das polaridades existentes na própria psique e aprofundando-se no autoconhecimento.

7 – Positivo e negativo, aqui, não se referem a conceitos de bom e mau em si. Trata-se de aspectos aceitos ou rejeitados pela psique em função do sistema de valores e do grau de elaboração do indivíduo.

8 – A sombra é o receptáculo de conteúdos que não podem ser aceitos pela consciência por não se adaptarem aos costumes, convenções e/ou crenças valorizados pelo indivíduo. É, geralmente, relacionada a elementos primitivos, instintivos e tidos como inferiores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. ANDOLFI, M.; ANGELO, C. & SACCU, C. – O casal em crise. São Paulo, Summus, 1995.

2. CALIL, V. L. L. – Terapia familiar e de casal, São Paulo, Summus, 1987.

3. CAPRA, F. – O Ponto de Mutação. São Paulo, Cultrix, 1982.

4. COLMAN, A. & COLMAN, L. – O Pai – Mitologia e Reinterpretação dos Arquétipos. São Paulo, Cultrix, 1988.

5. DI YORIO BENEDITO, V. L. – Amor conjugal e terapia de casal – uma abordagem arquetípica. São Paulo, Summus, 1996.

6. JUNG, C. G. – O Eu e o Inconsciente. Petrópolis, Vozes, 1990.

7. JUNG, C. G. – O casamento como um relacionamento psicológico. Obras Completas, vol. 17. Princeton University Press, 1970.

8. MATURANA, H. R. – Emoções e Linguagem na Educação e na Política. Belo Horizonte, UFMG, 1998.

9. SHAPIRO, H. L. Org. – Homem, cultura e sociedade. São Paulo, Fundo de Cultura, 1982.

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