Transtorno do estresse pós-traumático: como identificar e tratar

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Por Mariuza Pregnolato

Recentemente, casos trágicos têm se repetido nos noticiários e sensibilizado a população em todo o mundo. Houve terremoto no Nepal, o acidente aéreo na França, conflitos políticos e raciais em vários países, assaltos violentos, enfim, várias situações catastróficas que têm o potencial de afetar psicologicamente tanto as pessoas envolvidas na tragédia quanto aquelas que, mesmo à distância, encontram-se em momentos de maior vulnerabilidade emocional.

Uma das sequelas mais comuns da exposição a esses eventos é o Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT). Ele pode acometer tanto os sobreviventes quanto seus familiares, bem como aqueles que têm de lidar com a perda de um ente querido. Acidentes inesperados e que envolvem vítimas causam perplexidade porque explicitam claramente a fragilidade da condição humana.

Estudos recentes demonstram que cerca de 20% das pessoas expostas a catástrofes, sejam elas naturais ou provocadas, desenvolvem o distúrbio. E verificou-se que a tendência ao TEPT ocorre nesse grupo em função de sua história prévia (pessoas que possuem histórico de ansiedade, depressão e episódio de pânico, principalmente). Assustadas e revivendo as lembranças do acidente, elas não conseguem superar o trauma e retomar sua rotina. Uma sensação forte de perigo imaginário e imprevisível passa a controlá-las e, ao invés de ir se dissipando com o passar do tempo, vai se agravando. Essa reação é patológica e deve ser tratada o mais prontamente possível, para que não se instale. A pessoa, chocada pelo forte impacto de um determinado evento, fica incapaz de raciocinar com clareza. O resultado é uma distorção de tal ordem no seu modo de perceber e interagir com o mundo, que perde a capacidade de utilizar adequadamente os seus recursos internos para produzir uma resposta adaptativa, de modo que não consegue recuperar-se e seguir em frente com sua vida.  

Sintomas do TEPT

A insegurança que se sente diante do incontrolável, somada à dor das perdas sofridas e a certeza de encontrar-se à mercê do imponderável são sensações muito assustadoras e difíceis de serem assimiladas. O medo, a ansiedade e a imaginação desenfreada tendem a ocupar a mente de quem viveu situações ameaçadoras. Estas ocorrências costumam causar angústia invasiva, porém transitória, em quase todas as pessoas acometidas pelo transtorno e podem desencadear sintomas como apatia, rememorações repetitivas e invasivas do trauma, isolamento, insônia, estado de excitação e hipervigilância, desatenção, ansiedade e depressão.

Percepção do transtorno

Os sintomas podem ser sentidos imediatamente após o trauma ou mais tarde. Na maioria dos casos, esse estado de reação aguda ao estresse, embora seja uma experiência muito difícil, dura de poucas horas a alguns dias, dissipando-se progressivamente. Porém, algumas condições de vulnerabilidades individuais aumentam bastante o risco do estresse agudo evoluir para um quadro mais grave, cronificando o sofrimento e transformando-se no Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

Se a pessoa estiver debilitada, tanto por cansaço físico quanto por outros fatores orgânicos ou emocionais, a probabilidade de uma reação aguda ao estresse também aumenta bastanteIgualmente, o histórico de doenças mentais, uso excessivo de álcool e drogas, instabilidade emocional e dificuldade de adaptação são fatores predisponentes.

Daí a importância de se cuidar bem da saúde física e emocional. Sem isso, é muito difícil obter o equilíbrio necessário para enfrentarmos adequadamente todos os desafios do dia-a-dia. É necessário aprender a lidar com as situações que surgem, para ficarmos fortes o suficiente para enfrentá-las, ainda que com algum sofrimento. Para isso, precisamos estar saudáveis e ter, em nosso repertório, uma variabilidade comportamental que nos habilite a participar de vários grupos sociais, desenvolver atividades diferentes e estar em contato com ideias e possibilidades novas. Quando a pessoa está física e emocionalmente equilibrada, ela é capaz de ultrapassar todas as situações difíceis, sem deixar que estas se prolonguem além do tempo necessário para elaborar sua cura e sem deixar sequelas ou transformar a reação imediata numa doença que poderia comprometer gravemente sua vida.

Como tratar o estresse pós-traumático?

O tratamento usa alguns recursos da TCC – Terapia Comportamental Cognitiva – e consiste de sessões de psicoterapia nas quais o paciente é convidado a relatar sua vivência traumática, bem como o que pensa e sente em relação a esse evento específico. De um modo dialógico e em sintonia com o seu modo de ser, suas crenças, convicções e recursos internos vão sendo trabalhados e, assim, são atenuados os aspectos negativos do transtorno porque inicia-se a construção de estratégias de enfrentamento mais adaptativas, cujo objetivo é desenvolver a resiliência, promover o necessário equilíbrio emocional e consciência de autocuidado. Uma vez atingido esse resultado, trabalha-se a prevenção de recaídas, cuja finalidade é aparelhar o paciente para enfrentar situações futuras de ansiedade e medo, dotando-o de capacidade de respostas adaptativas.

Para isso, é necessário aprender a conhecer melhor os próprios mecanismos internos para poder modificar aqueles que provocam reações disfuncionais. Através do autoconhecimento, aprende-se também a permanecer emocionalmente mais equilibrado e a encarar adequadamente o fato de que podemos desfrutar a vida com o que ela tiver para nos oferecer, no momento presente único tempo real para se viver, porque o passado não volta e, quanto ao futuro, sabemos que é incerto.

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