Organização para os pequeninos

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Qual a importância de despertar e estimular o senso de organização nas crianças desde pequenas? Como os pais devem proceder para criar esse senso de organização nos filhos?

É importante para que elas  desenvolvam a consciência de terem contribuído, com sua capacidade de planejamento e esforço, para que os resultados saiam sempre melhores. O senso de organização deve ser estimulado nas crianças pelo exemplo e criando-se situações em que sempre haja coerência e explicações satisfatórias quanto às vantagens da organização. Por exemplo: Os pais devem explicar às crianças que é muito bom saber onde se encontram as coisas quando desejamos usá-las e que para obter esse efeito, é necessário guardá-las imediatamente após o uso. Todo o processo deve ocorrer sistematicamente, com coerência e sem exageros, para que aconteça com naturalidade.

Trabalhar com recompensas e castigos é o melhor caminho? Por quê?

Não acredito nessa estratégia porque não torna a criança organizada e consciente das vantagens da organização. Ao contrário, esse caminho acaba resultando numa criança voraz, que tenderá a recusar-se a cooperar em situações em que não é premiada ou, por outro lado, o fará só para fugir de punições ou situações aversivas.

Qual a melhor maneira de inserir as crianças no universo das tarefas domésticas, pouco a pouco?

Se esse for o desejo dos pais, eles deverão permitir que as crianças os auxiliem nas várias tarefas que estiverem desempenhando, ensinando às crianças os passos básicos de cada tarefa. Deverão ensinar-lhes como utilizar as diversas ferramentas e permitir-lhes o tempo que for necessário para que pratiquem, de forma lúdica, elogiando-as a cada pequeno progresso real. Por exemplo, para que uma criança pequena ajude sua mãe a preparar uma salada, ambas poderão juntas lavar as verduras e a mãe deverá orientá-la, fazendo juntas a mesma tarefa, de modo que possam ir falando sobre o trabalho e a mãe ir orientando a melhor forma de lavar, mostrar quando está realmente limpo, o que deve ser mantido e o que deve ser descartado, etc. Ao servir o almoço, deverá comunicar com orgulho, aos familiares, que a criança participou da confecção da salada, de modo que ela sinta-se importante com isso.

Em relação às atividades da escola ou lazer, o que precisa ser ensinado para reforçar as bases da organização?

No dia-a-dia, de forma leve, consistente, aparentemente casual mas sistematicamente, deve-se fazer com que a criança perceba as vantagens de ter seus pertences organizados e as desvantagens que têm aqueles que são desorganizados. Os pais devem ser criativos, alegres e reforçadores, sempre elogiando a criança quando ela demonstrar empenho em organizar-se. Não há um procedimento a ser seguido numa “lição de organização” eficiente e definitiva que valha para todos os casos, infelizmente. Os pais precisam estar presentes diariamente na vida das crianças e ir, dia-a-dia e carinhosamente, mostrando-lhes caminhos e formas de fazer aquilo que elas ainda não sabem fazer bem, de modo natural, sem parecer que estão dando bronca, mas com o espírito de quem está ensinando a fazer uma coisa que é legal de se fazer.

De que forma o aprendizado assimilado pela criança na infância reflete diretamente na vida adulta? Como ocorre esse processo?

Não apenas o conteúdo, mas as mensagens subliminares recebidas junto com o conteúdo formam a base do aprendizado da criança e sua posterior atitude em relação ao tema, em função do impacto recebido. Por exemplo: Uma criança recebe afetuosa orientação de seus pais para ser pontual em seus compromissos e convive com pessoas que, além de serem pontuais, são felizes sendo assim; essas pessoas a valorizam por ser pontual também; essa criança nota que nunca se prejudica por ser pontual, ao contrário, isso a beneficia; aprende, também, que há pessoas que não são pontuais, mas que devem ser respeitadas sendo como são e que, talvez, terá que se adaptar a elas em algumas situações, como fazem seus pais, sem sofrer por isso, etc. Essa criança terá assimilado esse comportamento de forma positiva e tenderá a adotá-lo como comportamento-padrão para o resto de sua vida. Se, por outro lado, ao longo de sua vida a criança observa que seu aprendizado a faz sofrer ou simplesmente não faz sentido, uma série de distúrbios poderão seguir-se, sempre dependendo de diversas possíveis variáveis. Por exemplo, se era solicitada a ser pontual, mas sempre tinha que esperar pelos outros, sentir-se-á desvalorizada e isso poderá até comprometer sua auto-estima, se essa situação tiver sido criada em casa quando criança.

Quais são as principais dicas para as crianças organizarem seus brinquedos, roupas e materiais escolares no dia-a-dia?

É fundamental que se entenda que toda criança deseja ser valorizada, amada e bem vista pelos pais. Elas precisam que os pais se orgulhem verdadeiramente delas porque essa é a base para a construção de sua auto-estima. Por isso, deve-se elogiar a criança – sempre que esse elogio puder ser sincero, bem entendido – por uma razão muito simples: Ela sempre tenderá a repetir o comportamento que fez com que seus pais ficassem orgulhosos dela. Em outras palavras, se sentir que que se saiu bem, ela procurará fazer melhor ainda. No entanto, não se deve exagerar, exigindo que as crianças tenham a responsabilidade que se espera de um adulto. Isso seria prejudicial para elas que ainda precisam viver sua idade, serem crianças mais em contato com sua própria natureza e não terem que realizar tarefas e seguirem cronogramas e coordenadas o tempo todo. Sem falar que o exagero ou rigidez na preocupação com ordem e organização pode abrir caminho para a instalação do TOC – Transtorno Obsessivo-Compulsivo.

Uma conduta muito saudável no trato com as crianças – e com as pessoas de modo geral – é focar sempre o aspecto positivo ao referir-se a cada situação, atitude ou comportamento, evitando-se os aspectos negativos em todas as nossas falas. Por exemplo, ao invés de dizer: “Leve o casaco, senão você passará frio”, prefira “Leve o casaco, assim você ficará quentinho”; ao invés de “Vamos rápido senão você vai se atrasar”, escolha o “Vamos acelerar um pouco mais para você chegar na hora”; ou no lugar de “saia da chuva senão ficará doente”, que tal “venha aqui para o coberto para ficar sequinho” e assim por diante. Essa simples mudança de fala cria imagens mentais positivas (me imagino chegando na hora, quentinha, sequinha).

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Mariuza Pregnolato em entrevista  à revista Faça Fácil.

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