Medo e superação

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O medo é um sentimento intrínseco à natureza humana?

Sim, é um dispositivo de autopreservação dos seres vivos. Sentir medo é natural e todas as pessoas sentem em vários momentos de suas vidas. E ele é essencial porque quando sentimos medo nos colocamos em estado de alerta e vários mecanismos fisiológicos entram em ação em nosso corpo, preparando-o para avaliar rapidamente a magnitude do perigo e decidir pela luta ou fuga, a que for mais adequada naquela situação. Essa é a função saudável do medo.

O medo pode se manifestar em qualquer situação?

O medo se manifesta de formas variadas em função das circunstâncias, do perfil psicológico, do tipo de vida que as pessoas levam, histórico familiar e tipo de informações que acessam, local em que habitam, etc. É muito natural sentir medo diante do novo, ficar ansioso diante de uma situação sobre a qual não se tem domínio. Quando se fala em medo, podemos pensar também nas variantes ansiedade, insegurança, fobias, bem como no medo real em relação à violência urbana, etc.

É possível deixar de ser medroso?

Sim. Todo mundo pode aprender a lidar bem com as situações que surgem ao longo da vida de uma forma saudável. A pessoa que está sofrendo muito devido ao medo constante e/ou excessivo pode recorrer à ajuda de um psicólogo para entender o que é que a faz sentir-se assim e para conhecer e usar eficazmente seus mecanismos de defesa. Realizando seu potencial inato de criatividade e defesa, ela desenvolverá autoconfiança para melhor avaliar cada momento e reagir proporcionalmente a cada um deles. Durante o processo terapêutico, ela aprenderá a ver o medo como um amigo que chama sua atenção e ativa seus melhores recursos de enfrentamento em resposta a situações de risco real.

O que é o medo imaginário?

É aquele que ocorre pela ansiedade em relação a algo que pode vir a acontecer, mas que não está acontecendo realmente. Quando alguém é ansioso demais, muito inseguro ou portador de uma baixa auto-estima, torna-se vulnerável a qualquer tipo de situação, mesmo àquelas que não oferecem risco real, tendendo a imaginar perigo onde ele não existe e a sofrer sem necessidade. Essas situações são complexas e precisam ser analisadas caso a caso porque, em geral, vêm de uma história de vida na qual foram construídas crenças disfuncionais acerca da própria capacidade de enfrentamento da pessoa.

Muito se tem falado sobre o medo instaurado após os atentados de 11 de setembro. No seu ponto de vista: O que mudou, de fato, após essa data?

O 11 de setembro foi um marco trágico para a sociedade norte-americana, que ainda não havia experimentado o terrorismo em seu próprio território. Um acontecimento em que muitos inocentes morreram ou ficaram incapacitados, mas nada muito diferente do que ocorre nos países que vivem em constante estado de conflito. O diferente, no episódio da tragédia do 11 de setembro, foi o choque com o novo: o povo americano foi impactado com um grau de violência do qual não se supunha alvo ficando, repentinamente, face a face com a própria vulnerabilidade. Tendo passado uma vez pela experiência de sentir-se impotente diante de uma grande ameaça, a sensação de medo de um perigo iminente tende a se instalar.

Quais são, sob a sua ótica, os principais anseios, temores e fantasmas do mundo moderno?

Da perspectiva individual, o medo de ficar só, de ficar doente, de ver-se sem recursos financeiros adequados parecem ser os mais recorrentes. Social e contextualmente eu destacaria a possibilidade de terrorismo e violência descontrolados, a escassez de recursos naturais imprescindíveis à vida (como a água, por exemplo), o desequilíbrio ambiental e suas nefastas conseqüências (como a contaminação por produtos tóxicos, chuva ácida, superaquecimento global), a fome, o materialismo e o consumismo desenfreados, o altíssimo grau de controle de opinião da mídia sobre as pessoas, a invasão da privacidade, a instabilidade política e econômica, para citar alguns dos mais gritantes.

Qual a diferença entre medo e fobia?

O medo é mais genérico. Ele pode ser específico ou difuso, real ou imaginário, de ocorrência circunstancial ou contínua, podendo generalizar-se para várias áreas da vida, inibindo a espontaneidade comportamental, a eficiência na execução de tarefas e até o autocuidado. A fobia é o medo em relação a um objeto ou situação específicos, como a agorafobia (medo de lugares amplos e cheios de gente), claustrofobia (medo de lugares fechados), medo do escuro, de insetos, de serpentes, de altura, de barata, de avião, etc.

Medo de barata, medo de avião, medo de solidão, medo de traição, medo de perder o emprego, medo de que os desejos não se realizem, medo de elevador, do escuro, da dor física… São tantos que poderíamos enumerar muitos outros além desses. E quem sente medo considera que o seu é maior e mais aterrorizante do que o do outro. Como lidar com essas situações que, muitas vezes, nem reais são?

Não tenho dúvida de que a psicoterapia é o instrumento mais eficaz para ajudar qualquer pessoa a controlar sua ansiedade e adquirir o equilíbrio necessário para que sinta medo somente quando for necessário que o sinta. O portador do medo constante, excessivo ou de uma fobia incapacitante sente-se solitário e crê que seu medo o controla – o que, em muitas casos, realmente ocorre – passando a ter prejuízos em sua vida, que vão desde limitações no âmbito social até a impossibilidade de trabalhar ou de estabelecer um relacionamento íntimo. Quando essas pessoas iniciam a terapia, começam a sentir melhora já nas primeiras sessões e tendem a dar-se muito bem com o processo psicoterapêutico, cujo papel é levá-las a enfrentar suas dificuldades de forma gradual e sistemática até que adquiram o controle sobre si mesmos e deixem de estar à mercê de seu imaginário. Para que a terapia funcione, no entanto, é imprescindível que o paciente esteja disposto a aceitar a ajuda do terapeuta, aderindo espontânea e honestamente ao processo.

O medo pode atrapalhar a ponto de “paralisar”, por exemplo, a vida de uma pessoa?

Sim. Nos casos mais graves a pessoa pode alienar-se, sentindo-se impedida de avanços rumo à socialização ou realização de tarefas. Pode parasitar amigos ou familiares, tornando-se dependente de alguém tanto afetivamente quanto nas questões de ordem prática do dia-a-dia. Nesses casos, a pessoa acionou um terceiro mecanismo de defesa, ao invés de optar por lutar ou fugir do perigo: Ela paralisou, isto é, optou por nada fazer. Embora esses pacientes refiram confusão, letargia e/ou incapacidade para decidir eles estão, ainda que inconscientemente, decidindo que outros farão as escolhas por eles. Estão literalmente abrindo mão da responsabilidade por suas vidas, mas muitas vezes se beneficiando do cuidado e atenção que sua condição desperta e se acomodando aí, onde o pouco que recebem parece doer menos.

Quais as ferramentas de que a Psicologia dispõe para o tratamento das causas do medo?

São várias as escolas psicológicas e, portanto, há diferentes abordagens e estratégias para se lidar com o medo. O que parece haver de comum entre elas é que a história de vida do cliente é a chave que elucidará como, onde e porque aquela condição nele se instalou. As abordagens mais mentalistas tenderão a focar a interpretação e a reconstrução da história de vida da pessoa, como forma de oferecer-lhe os insights necessários para que desfaçam associações negativas ou disfuncionais que geram sofrimento. Abordagens mais focadas na supressão dos sintomas ensinarão estratégias de enfrentamento, planejando sistematicamente a evolução do tratamento. É fundamental que o profissional de Psicologia esteja bem atualizado em relação às várias correntes terapêuticas disponíveis para que possa valer-se de recursos das várias abordagens existentes no desenho do tratamento que melhor atende as necessidades de seu cliente.

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Mariuza Pregnolato em entrevista à revista Sentir Bem.

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