Falando de preconceito

por Mariuza Pregnolato

INTRODUÇÃO

O desejo de conhecer melhor a questão do preconceito surgiu a partir da reflexão sobre a necessidade que o psicólogo tem de se abrir para o novo, de ser capaz de ver o indivíduo que se coloca à sua frente como um ser inédito, desconhecido, de modo que o entendimento que será feito da sua pessoa possa ser construído, gradativamente, a partir dos elementos que forem sendo fornecidos por ele, ou seja, que o psicólogo possa estar, na medida do possível, livre de qualquer tipo de preconceito, de modo a permitir-se ouvir aquilo que o paciente tem para dizer e da forma como é dita por ele, sem o impulso de classificá-lo dentro das categorias do conhecimento formal.

Entendemos que a teoria sobre a qual o profissional da área de Psicologia se orienta é de importância fundamental para nortear a compreensão sobre a problemática do indivíduo que o procura, porém não deve funcionar como um molde no qual o paciente tenha que necessariamente se encaixar, visto que cada indivíduo é diferente do outro e, embora haja momentos evolutivos comuns a todas as pessoas, bem como patologias e outras desordens que afetam um grande número delas, a forma de experienciá-las pode divergir grandemente de um indivíduo para outro em função de sua hereditariedade, carga genética, estimulação ambiental, enfim, sua história pessoal é sempre única, por mais que ele tenha assimilado parâmetros externos a ele, como os culturais, por exemplo.

Se é única a pessoa que se expõe ao psicoterapeuta, faz sentido que este seja capaz de poder vê-la como alguém que tem algo a acrescentar, que detém uma verdade que deve ser respeitada e que, a priori, não deve receber rótulo algum, a menos que seja criado um novo, exclusivo para a sua individualidade.

Não é fácil abrir mão das classificações que tanto facilitam o trabalho do profissional da saúde. No entanto, é importante que, num primeiro momento, elas estejam como que ‘arquivadas’ na mente do profissional, fazendo parte, sim, do arsenal de que ele dispõe para auxiliá-lo a compreender a problemática que tem diante de si, mas que fique nisso, para evitar uma atitude estereotipada, através da qual o paciente, ao revelar seus conteúdos, seria ‘engessado’ numa dada categoria, dificultando a própria escuta do profissional que, uma vez tendo em mente um determinado rótulo, poderia tender a, seletivamente, buscar nas palavras do paciente a confirmação para a sua hipótese diagnóstica inicial, desprezando informações que poderiam apontar em outra direção.

A tarefa de desfazer-se de idéias preconcebidas e atitudes discriminatórias não é simples, principalmente porque elas ocorrem, na maioria das vezes, de forma inconsciente. Estão tão enraizadas no nosso modo de ser que faz-se necessário um profundo trabalho de análise pessoal – com um profissional suficientemente sensível a essa questão, evidentemente – para poder identificá-las e promover uma modificação consistente, visto que vêm sendo introjetadas desde etapas muito primitivas do desenvolvimento, razão pela qual todas as pessoas, inclusive os psicólogos, estão sujeitos à sua ocorrência.

Bem, se os próprios psicólogos, de quem se espera uma maior clareza sobre o funcionamento psíquico e sua influência nas relações pessoais, não estão imunes ao preconceito, o que dizer de todas as outras pessoas? Quer dizer, então, que convivemos diariamente com ele, estando expostos a ele e, quem sabe, praticando-o sistematicamente? Se assim é, faz-se necessário conhecê-lo um pouco melhor.

FALANDO SOBRE O PRECONCEITO

São várias as maneiras possíveis de se abordar a questão do preconceito e também diversos os estudos já realizados sobre esse tema tão complexo, que para ser mais precisamente conceituado pede por esclarecimentos de diversas áreas do conhecimento, como é o caso da Psicologia, Sociologia e Filosofia, principalmente, visto que sua implicação não se restringe à esfera do indivíduo – que o adquire durante o seu processo de socialização, evidenciando, assim, que ele não é inato –, mas à sociedade como um todo, exigindo também um entendimento dentro de uma perspectiva histórico-cultural.

No presente trabalho – que nada mais é do que um exercício despretensioso de reflexão – não pretendemos estudar profundamente o preconceito. O que buscamos é, a partir da compreensão da ocorrência do preconceito no (e sobre o) indivíduo e das suas possíveis conseqüências, pensar em formas de diminuir sua incidência ou atenuar os seus efeitos, já que nestas páginas o preconceito é entendido como um fenômeno indesejável e moralmente negativo, que obstrui o caminho para a construção de uma sociedade mais justa e evoluída, composta por indivíduos cujo direito à cidadania não seja negado. Ou, melhor dito por Heller (in Amaral, 1995), porque “… todo preconceito impede a autonomia do homem, ou seja, diminui sua liberdade relativa diante do ato de escolha, ao deformar e, consequentemente, estreitar a margem real de alternativa do indivíduo” (p. 190).

Acredita-se que, em certa medida, o indivíduo preconceituoso o é independentemente das características do seu objeto-alvo, por trazer em si elementos que favorecem a discriminação preconceituosa, de modo que assim agirá em relação a vários objetos e não a um especificamente. Em outras palavras, o preconceituoso tenderá a adotar uma atitude de menosprezo em relação a tudo aquilo que lhe for estranho. Desta forma, a cada manifestação sobre o objeto, este sujeito estará expondo-se a si mesmo, evidenciando menos as características daquele do que as suas próprias, já que age sem reflexão, a partir de comportamentos cristalizados.

As formas de expressar o preconceito, segundo Crochik (1997) podem ser agrupadas em duas categorias principais: a primeira, que ele denomina de mimética, é aquela que ocorre quando o sujeito, ao ver-se diante de uma pessoa que lhe causa estranheza, um deficiente físico, por exemplo, tenta disfarçar seu desconforto aparentando indiferença ou mostrando-se exageradamente solícito, porque vê aquela situação como muito ruim, passando a atuar sem questionar a quê ou a quem estão respondendo os seus comportamentos. A segunda forma de reação é a rejeição, através da qual o preconceituoso vê o diferente como inferior, desvalorizando-o ou enquadrando-o numa preconcepção que não dá lugar à individualidade do outro.

O que há de comum em ambos os casos, e que se constitui na grande responsável pela existência e fixação do preconceito, é a ausência de reflexão do sujeito sobre si mesmo, sobre o conhecimento que adquire sobre o outro e sobre as próprias relações sociais. Além disso, a dificuldade em se permitir novas experiências agrava o quadro de atitudes cristalizadas e, portanto, fechadas à aquisição do novo, pela ausência de curiosidade sobre o outro. É como negar que a ignorância sobre o novo pode ser algo natural e bom, justamente o caminho para novas aquisições. E a indústria cultural contribui para isso, na medida em que “… dá os clichês que permitem ao indivíduo não ter de enfrentar a ansiedade presente na reflexão e na experiência” (Crochik, ib., p. 20).

Esse mesmo autor acrescenta: “… a subjetividade do indivíduo na percepção do objeto, que se constitui por experiências passadas e juízos formados, não deve ser anulada mas, sim, utilizada para que o indivíduo julgue, por si próprio, a racionalidade de determinadas opções de nossa cultura. Essa possibilidade de reflexão já se constitui em um forte impeditivo a que o indivíduo se associe a ideários que se voltem, inclusive, contra os seus próprios interesses racionais”. “… aquilo que se busca para contrapor ao preconceito e ao pensar estereotipado são a polaridade e a tensão perdidas entre sujeito e objeto” “… o antídoto do preconceito está na possibilidade de experimentar, sem ter a necessidade de se prevenir da experiência pela ansiedade que ela acarreta, assim como na possibilidade de refletir sobre si mesmo nos juízos formados através da experiência” (ib.,p. 24 e 25).

Cada indivíduo vai construindo sua identidade – aquilo que o caracteriza como pessoa – através do processo de socialização, que se inicia no meio familiar (socialização primária), estendendo-se aos demais grupos sociais ao longo de sua vida. Nas palavras de Lane (1995), “O viver em grupos permite o confronto entre as pessoas e cada um vai construindo o seu ‘eu’ neste processo de interação, através de constatações de diferenças e semelhanças entre nós e os outros. É neste processo que desenvolvemos a individualidade, a nossa identidade social e a consciência-de-si-mesmo” (p. 16).

Esse processo de construção dá-se de modo a promover modificações constantes no indivíduo, evidenciando as características de continuidade e transformação que constituem uma identidade que, portanto, não é estática, já que o indivíduo interage o tempo todo com o meio, modificando-o e modificando a si próprio. Melhor dizendo, é isso o que se espera como resultado da sua relação com o novo. Ocorre, porém, que essa capacidade de transformação fica terrivelmente prejudicada quando o preconceito e o pensamento estereotipado estão presentes. É disso que Ciampa (1986) trata ao referir-se à não-metamorfose: “Como o real é sempre movimento, transformação incessante, não deveria nem mesmo atrair nossa atenção uma afirmação como essa, que identidade é metamorfose; ela é óbvia; nem mesmo deveria ser considerada problema ou questão a ser pesquisada, já que compartilha da natureza de tudo que existe. Porém, se chega a despertar nossa atenção, se chega a ser objeto de estudo e investigação, é porque a metamorfose pode nos aparecer como não-metamorfose, como não-movimento, como não-transformação. Se isso ocorrer (e, vemos, ocorre), então a verdadeira questão deve ser explicar a não-metamorfose. Ou ela é mera aparência, mera ilusão a ser desvelada, a ser desfeita, ou é uma forma de identidade, e então é real, portanto deve ser conhecida” (p. 148). E mais adiante, “Na verdade, evitar a transformação – manter-se inalterado – é impossível; o possível, e que requer muito trabalho, é manter alguma aparência de inalterabilidade, por algum tempo, como resultado de muito esforço para conservar uma condição prévia, para manter a mesmice” (p. 165).

Crochik (1997) afirma que a singularidade do indivíduo faz com que ele se diferencie da cultura, embora seja seu produto, situação em que teríamos um sujeito com autonomia de consciência e espontaneidade da experiência, isto é, não predisposto ao desenvolvimento do preconceito. Porém, alerta para a ocorrência de outras duas possibilidades: que o indivíduo torne-se um mero reprodutor da cultura, deixando de contribuir para a sua modificação através de críticas, devido a um excesso de identificação com ela, ou mesmo que a coloque em risco por não reconhecer-se nela, a ela se contrapondo sistematicamente. Ambas as situações se configuram como um terreno fértil para o surgimento do preconceito. “No primeiro caso, porque a fragilidade individual nega a própria capacidade de refletir e experimentar os objetos fornecidos pela cultura e de pensar as representações que a eles atribui; no segundo, pelo fato de o indivíduo não conseguir perceber que a sua visão preconcebida da realidade é fruto de sua própria dificuldade em percebê-la como fonte de seu desenvolvimento e, assim, poder julgar a si mesmo e aos outros como dependentes dela” (p. 13).

O preconceito é um assunto sério e deve ser combatido porque promove a discriminação que pretende separar os homens em grupos de seres superiores e inferiores – que redunda na prática do poder dos mais fortes sobre os mais fracos – normais e anormais, melhores e piores, mais capazes e menos capazes, etc., gerando hostilidade, sutil ou manifesta, chegando mesmo a produzir lamentáveis episódios e terríveis tragédias, como é o caso da tentativa de extermínio dos judeus pela Alemanha nazista durante a II Guerra Mundial, os crimes praticados contra os negros americanos pela Klu-Klux-Klan, a eliminação de indígenas americanos pelos colonizadores europeus e mais um triste e infindável desfile de infelizes episódios ocorridos ao longo de nossa história.

Nem sempre a ação do preconceito culmina em atrocidades como esses assassinatos em massa; no entanto, sua presença é sempre geradora de tensão e situações de grande sofrimento para suas vítimas, seja ele físico ou moral.

Já dissemos que, uma vez instalado o preconceito no indivíduo, este não se restringe a direcioná-lo a um único objeto. Adorno (1965) coloca que, embora haja casos em que as hostilidades ocorrem devido a frustrações ou sofrimentos realmente impingidos ao sujeito pelo objeto da sua hostilidade, deve-se atentar para o fato de que existe uma forte tendência a se generalizar o preconceito, ou seja, todo indivíduo que abriga sentimentos de hostilidade em direção a um determinado grupo minoritário, muito provavelmente exercerá hostilidade também em direção a outros grupos. Desta forma, aquele que tem preconceito contra os negros, por exemplo, tenderá a ser preconceituoso em relação a todos aqueles que lhe são diferentes, sejam quais forem as suas características. E aqui poderíamos iniciar uma longa lista de preconceitos, além do racial: social, religioso, contra as mulheres, os homossexuais, os deficientes físicos e/ou mentais, os idosos, os gordos, os baixinhos, os pobres, etc.

O problema do preconceito é difícil de ser equacionado porque a sua propagação se dá nas relações do indivíduo, principalmente através do mecanismo de projeção. A fragilidade egóica do preconceituoso leva-o a projetar no objeto externo a sua própria fraqueza, passando a desprezá-lo por aquilo que o objeto passa a lhe mostrar, mas que é seu. Ora, como é um ser social, dependendo do papel social que desempenhe, o preconceituoso irá atuar como um elemento multiplicador do preconceito, “contaminando” as pessoas, especialmente aquelas cujo psiquismo apresente um ego frágil ou em formação encontrando-se, portanto, num estado de maior sugestionabilidade. Se for pai, será um modelo preconceituoso para sua prole; como professor, ensinará seu modo preconceituoso de pensar e compreender; como autoridade, atuará exercendo o domínio sobre seus subalternos; como profissional de saúde, agirá preconceituosamente no seu dia-a-dia, podendo ser imitado por ser uma autoridade na sua área e assim por diante.

É deprimente observar a quantidade de injustiças a que assistimos diariamente contra indivíduos que as sofrem devido a uma condição sua que não é valorizada pelas pessoas que se julgam pertencentes a uma categoria de pessoas melhores, digamos assim, e que não os aceitam porque são, talvez simples e inconscientemente preconceituosos. É um quadro desolador.

O QUE FAZER?

Algo precisa ser feito para modificar esse quadro e esse algo tem que passar pela reflexão. Talvez antes mesmo da reflexão – ou até mesmo para possibilitá-la – seja necessária a empatia pela causa da luta contra o preconceito. Parece-nos que esse caminho oferece maiores possibilidades. Uma vez denunciado o fenômeno, ele chegará pelo menos aos ouvidos das pessoas, o que poderia ocorrer de uma maneira informativa, podendo sensibilizar uma parte delas, que possivelmente não haviam atentado ainda para esse tema, mobilizando-as à reflexão e, talvez, mesmo para a ação, o que as tornaria agentes multiplicadores desse trabalho.

E por onde começar? Bem, observam-se sinais positivos de alguma movimentação no sentido de empreender a luta contra o preconceito. São iniciativas, ainda que vagarosas, algumas delas aparentemente consistentes. Crochik comenta a esse respeito: “o progresso contra o obscurantismo e a possibilidade de uma vida melhor são visíveis. Devemos lembrar que um dos objetivos básicos de nossa cultura é a luta contra a resignação, a luta que possibilita ao homem ser dono de seu destino e, assim, não aceitar as limitações humanas que estão presentes, quer nos preconceituosos, quer em algumas de suas vítimas, posto que elas não são inerentes a eles. Essa luta também está presente no combate à seleção natural, uma vez que os seres considerados como defeituosos não são abandonados, ao menos não completamente, por mais que, ao longo dos séculos, haja tendências neste sentido. Os movimentos de massa, por sua vez, que se empenham em implantar os direitos daqueles que são excluídos, são uma marca deste século.” “É progressivo, também, que a educação e o mercado de trabalho mostrem algumas iniciativas, ainda que tímidas, para a inclusão de deficientes mentais. E que na Constituição de alguns países, entre eles o Brasil, proíba-se a discriminação de qualquer tipo” (ib., p. 131).

Mas isso é, na melhor das hipóteses, apenas um bom começo. Ainda há muito trabalho por fazer e nossa principal intenção é, como já mencionado anteriormente, pensar em sugestões para colocá-lo em prática. Para isso, além de começarmos buscando conhecer as sugestões apresentadas nas obras pesquisadas, pensamos em permitir que nossas idéias pudessem fluir livremente, sem grandes críticas com relação à sua exeqüibilidade ou adequação, mais à maneira de brainstorming para, quem sabe, facilitar o surgimento de novas sugestões.

Os autores pesquisados apresentam várias e interessantes idéias. Crochik (ib.) sugere a orientação aos pais, visto que a base do preconceito é formada na infância, sugerindo uma relação na qual a criança veja legitimadas as suas necessidades de expressar a sua agressividade e sexualidade; enfatiza a importância da reflexão e da experiência para que o indivíduo deixe de necessitar do preconceito e possa realmente contatar-se com si mesmo e com os outros; refere-se à necessidade de um clima cultural, que seja facilitador do diálogo e da reflexão, podendo começar na escola e pelos meios de comunicação de massa; fala que a transmissão de conhecimentos deve ser feita numa escola que vise à formação do indivíduo como cidadão, com discussões abertas sobre temas que sejam do interesse do aluno, num clima que facilite a expressão da sua subjetividade e em classes heterogêneas, objetivando sempre a discussão dos problemas em cada oportunidade em que eles surgem; defende a ênfase nos esportes coletivos, por estimularem a solidariedade e pensa na modificação da programação da mídia, que deveria enfatizar a discussão de questões políticas e do cotidiano, em seus horários nobres.

Masini (1997), mais envolvida com a questão do preconceito em relação ao deficiente, enfatiza a necessidade de se promover encontros e debates entre professores, alunos, instituições, deficientes e familiares, compartilhando conhecimento, experiências e inquietações; sugere que se aprofundem e multipliquem os trabalhos de pesquisa na área da deficiência para que se conheça cada vez mais a fundo as suas necessidades; fala da necessidade de se favorecer o intercâmbio de informações e criar canais de interação e de divulgação de conhecimentos; quanto ao trabalho direto do psicólogo com o deficiente, acredita que aquele deve funcionar como um bom espelho “…que reflita com segurança as necessidades naturais e espontâneas de nossos clientes, de modo que eles possam ver as suas possibilidades e encontrar as suas respostas…” “…acredito ser possível prestar-lhes ajuda suficiente para que venham a ser aquilo que realmente são” (p. 46-7).

Khouri (1984), em seu trabalho sobre a Psicologia Escolar, diz que a escola “deveria caracterizar-se como um local onde se proporcionasse continuamente o enriquecimento da personalidade, como um campo fecundo de relações humanas maduras, onde fosse efetiva a passagem da subordinação à autonomia, da dependência à independência, da imitação à criatividade” e elabora uma lista de orientação aos professores, que ela chama de Propostas relativas a processos afetivos na qual, dentre outros itens, orienta o professor para que aceite a individualidade de cada aluno, criticando seus trabalhos de modo que eles não se sintam inferiorizados nem culpados, mas incentivados a refazê-lo, de modo a aumentar e não diminuir sua auto-estima, tendo consideração pelos seus sentimentos.

Estas são algumas, dentre outras importantes colocações, propostas e sugestões encontradas nas obras consultadas. Evidentemente, cada pesquisador buscará estudar a questão a partir de sua área específica de atuação, o que sempre redundará numa colaboração bem-vinda, porque especializada. No entanto, em se tratando de preconceito, é fundamental que não se perca de vista que em todas as áreas, em todos os segmentos sociais, o profissional que ali atua é um ser humano que, antes de profissional especializado, é um ser social, portanto fruto – e continuamente exposto – a um contexto sócio-cultural que o influencia e sobre o qual também exerce influência. Paulo Freire (1990) na apresentação do trabalho Cuidado, Escola!, fala sobre isso: “Se não se pode pedir à escola, o que vale dizer, à educação formal, que se torne alavanca das transformações sociais, não se pense, por outro lado, que ela seja um puro reflexo do sistema que a engendra.” “Fala-se da crise da escola como se ela existisse desgarrada do contexto histórico-social, econômico, político da sociedade concreta onde atua; como se ela pudesse ser decifrada sem a inteligência de como o poder, nesta ou naquela sociedade, se vem constituindo, a serviço de quem e desservindo a quem, em favor de que e contra que”.

Isso nos remete à idéia de que é necessário, também, um trabalho de caráter generalizado, que atinja a todas as pessoas. Cada profissional que se sensibilizar com o tema poderá desenvolver um programa de intervenção para sua área, atuando nas escolas, creches, universidades, hospitais, instituições sociais, etc.. E as demais pessoas podem fazer um trabalho inespecífico, mais em sintonia com suas potencialidades pessoais. Cremos que é possível realizar algo nesse sentido, mesmo que o trabalho se inicie como empenho individual, não sistematizado, tipo “trabalho de formiguinha”, porque se as pessoas que se sensibilizam com a idéia da luta contra o preconceito se empenharem, por mais ínfima que possa parecer a sua contribuição, haverá sempre um resultado, mesmo que não imediatamente visível.

Pensamos que o simples fato de possuir disponibilidade para reflexão já é um bom caminho para arrancar o indivíduo das garras do preconceito e também para habilitá-lo a tornar-se um elemento multiplicador para o tipo de trabalho que temos em mente. Dessa forma, cada pessoa, caso o deseje, pode contribuir valendo-se das oportunidades que surgirem no seu dia-a-dia, simplesmente oferecendo seu exemplo pessoal de indivíduo não-preconceituoso verbalizando seu modo de pensar, propondo questões que levem seus interlocutores a refletir, enfim, utilizar-se de seus melhores recursos para disseminar a idéia do não à discriminação, na prática e de modo informal, nos bate-papos com os amigos, familiares e colegas de trabalho, não de uma forma insistente, impositiva nem professoral, mas naturalmente, tentando levá-los a pensar no ganho que se obtém ao abrir-se para novas possibilidades. Nessas conversas um número infinito de idéias pode surgir para enriquecer a fala, sem que se passe a idéia de ensinamento. Por exemplo, se percebemos que alguém tem dificuldade para lidar com uma certa angústia, podemos falar-lhe com naturalidade sobre nossa própria experiência ao lidar com a angústia e quanto isso foi produtivo, estruturador ou elucidativo para nós. Podemos sugerir, fazer comentários, falar de nós mesmos, citar casos, interagir livremente e deixar que a aura de seriedade e dignidade que nos cerca – supondo-se que ela exista – faça o resto do trabalho, produzindo um resultado de adesão às nossas idéias ou não.

Tudo leva a crer que serão trocas muito ricas, porque provavelmente cada uma dessas experiências ensinarão muito para ambos os lados envolvidos. Se o sujeito estiver convencido de que essa atitude pode realmente oferecer bons resultados, ou seja, que seu interlocutor pode assimilar a mensagem que lhe é transmitida, a energia que pusermos nessa atividade burilará o processo, completando o trabalho – não de forma mágica, mas especialmente naqueles indivíduos que apresentam maior disponibilidade para assimilar o novo – concretizando aquilo que se convencionou chamar de profecia auto-realizadora.

Se as pessoas se põem a pensar, principalmente em grupo e de forma acrítica, como num brainstorming, surgem infinitas idéias e possibilidades de trabalho. Essa seria uma outra sugestão: formar um grupo de pessoas interessadas na luta contra o preconceito, que se reunisse regularmente para pensar novos projetos e selecionar as melhores idéias surgidas. O mesmo grupo, ou um outro, poderia trabalhar no planejamento, projeto e implantação de cada idéia aprovada, sempre pensando juntos como realizar cada uma das etapas, ou seja, como pôr em prática o projeto, que recursos utilizar, qual o público-alvo, etc.

Poderiam ser explorados mais intensamente os recursos tecnológicos disponíveis, criando-se sites, grupos, redes, aplicativos, perfis atraentes, etc.. específicos, infantis, juvenis e adultos que tratassem da questão do preconceito, objetivando oferecer informações sobre eventos, estudos, publicações, pesquisas e possibilitando o intercâmbio entre os internautas engajados nessa luta e para outros interessados ou simpatizantes do tema.

Outra forma de utilizar-se da riqueza e fantástica capacidade de abrangência da internet seria a criação de novas abordagens, também dirigidas distintamente para crianças, adolescentes e adultos, porém sobre temas específicos e de interesse desse público. Utilizando recursos de jogos, foruns, música, chats, esportes ou divulgação de matérias sobre personalidades do mundo pop em meio aos textos específicos desses assuntos, embutir-se-iam periodicamente idéias de valorização da diversidade, igualdade social, cidadania, o valor da reflexão, etc.

Poderiam também ser desenvolvidos projetos educacionais voltados à conscientização da problemática do preconceito, que tivesse acesso garantido às crianças, através de canais já existentes e de larga abrangência, simplesmente ousando – e por que não? – oferecê-las àqueles que detém grande poder de divulgação, por exemplo, criando personagens de histórias em quadrinhos que fossem simpáticos às crianças (ou mesmo criando falas para uma personagem já existente), oferecendo a idéia a profissionais da área e buscando motivá-los a abraçar essa causa.

Outra idéia, e que parece bastante fácil de ser colocada em prática, é formar um grupo de pessoas interessadas em temas relacionados ao preconceito que se dispusessem, mesmo que informal e individualmente – melhor se fosse de forma mais sistematizada, evidentemente – a divulgar aqueles programas que realizam trabalhos sérios e eficazes contra o preconceito e que são realmente idôneos, como é o caso do UWC – United World Colleges1, ao qual qualquer estudante em torno dos 16 anos de idade tem chance de ingressar para usufruir de uma educação de altíssimo nível, medido pelos parâmetros das melhores escolas internacionais, independente de sua origem, credo, raça, cor, nacionalidade ou condição social.

Poderia ser empreendido um esforço para que as entidades nacionais que tratam da questão do preconceito fossem consideradas como órgãos de utilidade pública e tivessem seus dados divulgados com destaque nos catálogos de busca, redes sociais, escolas e empresas, para que as pessoas pudessem denunciar abusos sofridos ou presenciados.

Também seria possível criar grupos que teriam a finalidade de analisar materiais os mais diversos, como propagandas, programas veiculados nas mídias convencionais, outdoors, filmes, etc. e denunciar, sempre que se observassem conteúdos preconceituosos, através dos programas, sites, e quaisquer outros meios existentes ou a serem criados.

Os grupos e entidades envolvidos com o trabalho contra o preconceito poderiam planejar uma estratégia de ação para manter contato com os políticos exercendo constante pressão, especialmente nos períodos que antecedem as eleições, para que seus projetos sejam defendidos, postos em votação, discutidos e implantados.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Realmente são inúmeros os caminhos quando se busca oferecer aquilo que não está sendo solicitado. É como pensar no lançamento de um produto para consumo de um determinado tipo de público. Investiga-se o seu perfil, busca-se conhecer seus gostos, preferências e necessidades e dispara-se o golpe direto no seu ponto fraco, através da estratégia de marketing que for julgada mais eficaz para aquele caso específico, empurrando-lhe o produto goela abaixo via massiva campanha publicitária. Nem importa se o produto atende a um anseio ou se apenas criou-se uma necessidade antes inexistente.

Se se tratar de um consumidor consciente (um indivíduo que possui auto-crítica e capacidade de reflexão) ele irá refletir antes de decidir se aceita adotar esse novo produto ou não. Se for um consumidor compulsivo (alguém com pensamento estereotipado, indiferenciado de sua cultura) adotará o produto sem pestanejar, como se este estivesse realmente respondendo às suas necessidades ou aspirações.

No nosso caso – convencer as pessoas a não serem preconceituosas – não é tão simples assim, porque o nosso produto não é “vender” a idéia de igualdade social colocando-a na moda, como uma tendência para a próxima estação, que se adota e se usa mecanicamente. Não! É preciso internalizar essa idéia, compreendê-la bem, permitir que ela faça sentido através do exercício da razão, do enfrentamento dos próprios medos e angústias, abrindo mão de uma posição mais confortável, porque irrefletida, de falsa superioridade.

E é por isso que não nos parece uma violência lançar mão das estratégias citadas para divulgar uma causa que, além de nos afigurar como nobre, se bem sucedida – isto é, se puder fazer com que uma pessoa preconceituosa deixe de sê-lo – trará o indivíduo fatalmente para o mundo da razão, do exercício da reflexão produtiva, da capacidade de julgar a partir de seus próprios critérios estando, portanto, livre para decidir sozinho se deseja ou não compartilhar da luta contra o preconceito, já sem nenhum preconceito.

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(1) O UWC, em português “Colégios do Mundo Unido”, é uma associação que conta com 14 escolas espalhadas por dez diferentes países (Canadá, Cingapura, Suazilândia, Estados Unidos, Venezuela, Hong Kong, Noruega, Índia, Itália e Inglaterra), onde estudantes do mundo todo convivem num ambiente desenvolvido com o intuito de promover a paz e a compreensão entre os povos através da educação, do respeito à diferença, de experiências compartilhadas e de serviços comunitários, contribuindo para a formação de cidadãos responsáveis, com consciência política e ambiental, compromissados com os ideais de paz, justiça e cooperação, implementando esses ideais através da ação e de exemplos pessoais. Tanto os alunos quanto os professores são internacionais, incluindo representantes das mais variadas raças, culturas, nacionalidades, nível social, religiões e pensamentos políticos. Os alunos são selecionados por mérito e recebem bolsas de estudos fornecidas pelos próprios UWCs ou pelos comitês nacionais, criados para angariar esses fundos. Todos os colégios fornecem, ao final dos dois anos obrigatórios de estudos (o aluno cursa lá o equivalente às nossas 2ª e 3ª séries do ensino médio), o diploma de Bacharelado Internacional, reconhecido mundialmente e que, no Brasil, equivale ao certificado de conclusão do ensino médio. O UWC têm o apoio da Organização das Nações Unidas, sendo que o seu primeiro presidente – o primeiro colégio foi fundado em 1962, na Inglaterra –, Earl Mountbatten, era membro da ONU na época e foi sucedido pelo príncipe Charles. Atualmente a presidente dos UWC é a rainha Noor, da Jordânia e o ex-presidente honorário é Nelson Mandela, ex-Presidente da África do Sul. Todo ano o Brasil consegue bolsas de estudos e atualmente há sete alunos brasileiros estudando no UWC, distribuídos em diversos países. (mais informações em http://www.uwc.org.br).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADORNO, Theodor W. et al. La personalidad autoritaria. Buenos Aires, Editorial Proyéccion, 1965.

AMARAL, Lígia Assumpção. Conhecendo a Deficiência (em companhia de Hércules). São Paulo, Robe Editorial, 1995.

CIAMPA, Antonio da Costa. A estória do Severino e a história da Severina – Um ensaio de Psicologia Social. São Paulo, Editora Brasiliense, 1987.

CROCHIK, José Leon. Preconceito, Indivíduo e Cultura. São Paulo, Robe Editorial, 1997.

KHOURI, I. G. Psicologia Escolar. São Paulo, EPU, 1984.

GRANDE ENCICLOPÉDIA LAROUSSE CULTURAL. São Paulo, Editora Nova Cultural, v. 4, 1995.

HARPER, Babette et al. Cuidado, Escola! Desigualdade, domesticação e algumas saídas. São Paulo, Editora Brasiliense, 1990: FREIRE, P. – Apresentação.

LANE, Silvia T. Maurer. O que é Psicologia Social. São Paulo, Editora Brasiliense, 1995.

MASINI, Elcie A. Forbes Salzano et al. Deficiência: Alternativas de Intervenção. São Paulo, Casa do Psicólogo, 1997.

 

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