Estimulação Cognitiva

ESTIMULAÇÃO COGNITIVA PARA ADULTOS E IDOSOS

Por Mariuza Pregnolato

A partir do entendimento de que cada pessoa é única e que o envelhecimento é apenas mais uma fase do desenvolvimento normal, tem-se que cada indivíduo deve ser ouvido atentamente. Só assim faremos com que a terapia a ser oferecida atenda satisfatoriamente às suas expectativas tanto de resultado (que seja eficiente para resolver suas dificuldades) quanto de esforço durante o tratamento (que seja escolhido o tipo e dimensionado o grau de empenho que mais lhe agrade).

Todo ser humano em sã consciência prefere se sentir feliz e, sempre que possível, evita atividades maçantes e desagradáveis. Sabemos que o que é agradável para um pode ser o pesadelo do outro, visto que cada um tem aprendizados, significações e história de vida únicos, de modo que as preferências pessoais dificilmente podem ser generalizadas. Daí ser tão importante que a abordagem a ser utilizada olhe o paciente como único; que privilegie o seu interesse, preferências pessoais e bem-estar para, juntamente com ele, escolher as atividades de estimulação cognitiva que serão contempladas durante o seu tratamento. Para isso, é indispensável fazer um levantamento dos tipos de atividades e ferramentas utilizadas para o treino cognitivo, isto é, conhecer o universo de possibilidades disponíveis no momento para cada finalidade de estimulação.

Por entender que muitos profissionais de saúde, particularmente da área de Psicologia, parecem mostrar-se tímidos ainda para lançar mão de recursos tecnológicos de última geração ao elaborar programas de treinamento cognitivo, pareceu-me oportuno direcionar este trabalho para explorar, ainda que superficialmente, o que existe de mais novo e avançado tecnologicamente em termos de ferramentas com potencial para enriquecer o trabalho clínico. Por essa razão, foquei minha busca em novos recursos produzidos especialmente para treinamento cognitivo (ou não específicos, mas adaptáveis a esse tipo de programa) e abri mão de elencar as demais alternativas disponíveis, mais convencionais, conhecidas, possíveis e acessíveis.

Na primeira parte deste trabalho, sob o título “O Envelhecimento e o Declínio Cognitivo” discorro brevemente sobre o processo normal de envelhecimento, apresentando e justificando a relevância do tema. A seguir, explano sobre “O Treino Cognitivo” como prática disseminada globalmente hoje em dia, não só para tratamento e prevenção do declínio cognitivo, mas destacadamente como forma de entretenimento. Na seção “O Que Melhor Combina Comigo??”, exponho minha proposta de ampliar o leque de possibilidades para tratar das necessidades do paciente escolhendo a intervenção que melhor combina com ele através do respeito às suas idiossincrasias. Sob o título “Bem Só e/ou Bem Acompanhado” apresento sucintamente minha visão pessoal sobre a validade e preponderância do bem-estar subjetivo como parâmetro para avaliação do bem-estar geral. “O Que É Que Há!!” traz uma pequena amostra extraída da imensa vastidão de instrumentos mais atuais disponíveis para treino cognitivo levantados da literatura e pesquisa pela internet, com breves comentários ou esclarecimentos. E nas “Considerações Finais” discuto brevemente os achados e impressões sobre a proposta do treino cognitivo atrelado a resultado e prazer.

O Envelhecimento e o Declínio Cognitivo

O processo normal de envelhecimento provoca alterações de algumas habilidades cognitivas, destacadamente o desempenho das memórias episódica e operacional, que vão diminuindo à medida que a idade avança. Estudos com pessoas acima de sessenta anos têm demostrado declínio cognitivo geral e nas funções executivas, mas mais acentuadamente nas tarefas que exigem atenção, rapidez, concentração e raciocínio indutivo, precisão, priorização de foco e inibição de informações irrelevantes(23).

Há grande variabilidade de possíveis causas atuando nesses processos. Por exemplo, fatores como o nível de escolaridade, herança genética, nível sócio-econômico-cultural, estilo de vida (e aí incluem-se hábitos alimentares, vícios, atividade física x sedentarismo, qualidade do sono), ansiedade, acuidade visual, acuidade auditiva, etc.. são componentes moduladores dos efeitos do envelhecimento sobre a memória, principalmente. Desta forma, tem-se que, do mesmo modo que acontece com o envelhecimento como um todo, o processo de declínio cognitivo também se dá de forma diferente para cada pessoa.

Há evidências de que essa multifatorialidade de causas e sua consequente diversidade de efeitos atuem igualmente sobre a maioria das demais habilidades cognitivas e não somente sobre as citadas acima, visto que várias delas trabalham de forma integrada, de modo que o declínio de uma afetará a performance de outra a ela associada, resultando num desempenho geral empobrecido.

Segundo o entendimento de Araujo(2), a cognição é a capacidade de o indivíduo adquirir e usar informação, a fim de adaptar-se às demandas do meio ambiente. A preservação das funções executivas é fundamental para que se possa lidar eficientemente com as várias situações do dia-a-dia. De acordo com Oliveira (in Santos at al23, cap. 7) trata-se de um conjunto de processos cognitivos que, de forma integrada, permitem ao indivíduo direcionar comportamentos e metas, avaliar a eficiência e a adequação desses comportamentos, abandonar estratégias ineficazes em prol de outras mais eficientes e, desse modo, resolver problemas imediatos, de médio e de longo prazo.

Este autor enfatiza a importância das funções executivas e destaca que sua principal característica é a organização temporal do comportamento dirigido a objetivos, que é alcançada pela coordenação conjunta e hierárquica de três funções cognitivas: a memória de trabalho, a atenção motora (que prepara o indivíduo para a ação) e o controle inibitório. Estas são as características das funções cognitivas que posicionam as funções executivas como um dos aspectos mais complexos da cognição humana. Os processos cognitivos integrantes das funções executivas são: planejamento, controle, tomada de decisões, flexibilidade cognitiva, memória operacional, atenção, categorização, fluência, criatividade, integração de detalhes de modo coerente e o manejo de múltiplas fontes de informação, coordenadas com o uso de conhecimento adquirido(23).

Ballesteros et al(5) defendem que o empobrecimento da atividade cerebral relacionada ao envelhecimento tende a resultar em deterioração funcional em vários aspectos da cognição, dependência e demência. Por conta disso, explicam, o principal objetivo dos estudos que vêm sendo realizados mais recentemente nesta área visam a investigar e desenvolver métodos que ajudem a manter o cérebro saudável, promovam a manutenção da qualidade cognitiva, a independência e o bem-estar dos idosos.

A comunidade científica tem recebido cada vez mais apoio para desenvolver tais estudos porque já entende que a melhora do desempenho cognitivo, por suas amplas possibilidades de aplicação, atende ao interesse geral da população. Ademais, particularmente no que tange ao cenário demográfico atual, de crescente aumento da população idosa em escala global, a preservação do desempenho cognitivo desempenha importante papel na conquista de um envelhecimento ativo e saudável reduzindo, retardando ou mesmo evitando o declínio cognitivo.

O Treino Cognitivo

Entende-se por treino ou estimulação cognitiva a intervenção estruturada com a finalidade de eliminar ou atenuar dificuldades cognitivas, em função do grau de comprometimento existente ou prevenir sua ocorrência. Pode-se treinar habilidades específicas, bem como modular o treino para os diversos níveis e perfis de desempenho cognitivo: destinados a adultos ou idosos saudáveis, com comprometimento cognitivo leve (CCL), com quadro demencial em fase inicial ou adiantada, para pessoas com alto ou baixo nível de escolaridade, etc. O treino cognitivo consiste em propor um programa de atividades através do qual são estimuladas diversas funções cognitivas como atenção, memória, linguagem, velocidade de processamento, etc.. Deve ser planejado de modo a atender o perfil cognitivo de cada pessoa.

Pesquisas realizadas com pessoas saudáveis portadoras de pequeno declínio cognitivo resultante do processo normal de envelhecimento têm demostrado resultados bastante significativos na melhora do seu desempenho em tarefas para as quais foram treinadas sistematicamente. Como exemplo, vale citar o trabalho de Kawashima(11), que tem obtido resultados excepcionalmente bons de melhora na capacidade de realizar cálculos mentais em idosos japoneses, através da repetição de certos cálculos simples, em treino sistemático de três vezes por semana.

Embora esses achados sejam importantes e já tenham aberto o caminho para treinos eficientes em atividades específicas, o que se busca hoje é um resultado ainda mais amplo, que abranja a questão da plasticidade cerebral do cérebro de idosos.

Plasticidade cerebral refere-se à capacidade do cérebro de modificar-se em função de uma dada influência. Em outras palavras, trata-se de um processo adaptativo, em que ocorrem alterações físicas e estruturais no cérebro – produção de novas sinapses – como resultado da estimulação repetitiva. Silva et al(23) realizaram estudos de treino cognitivo realizados no Brasil, em cujo paper afirmam: “Plasticidade cognitiva refere-se à capacidade de mudança mediante a experiência e ao uso, propiciando o aumento do desempenho em diferente domínios. Estudos nacionais e internacionais indicam que a plasticidade cognitiva pode ser ampliada e estimulada por programas de treino cognitivo. Quando estimulados, os idosos podem apresentar melhor desempenho em tarefas cognitivas, efeito que supera o efeito da retestagem no pós-teste e dos grupos placebo”

O maior obstáculo para realizar esses estudos está em obter as condições ideais de testagem, isolar e controlar as múltiplas variáveis que interferem na avaliação, tanto em termos de homogeneidade da amostra (idade, sexo, renda, escolaridade, etc.. ) quanto a características individuais e de personalidade, hábitos pessoais (alimentação, qualidade de sono, prática de atividade física, nível de desempenho ou grau de comprometimento cognitivo, etc.), avaliação pré e pós treino de grupo em treinamento e grupo controle, etc. Esforços vem sendo feitos no sentido de aumentar a produção científica e a investigação controlada dos resultados das diversas modalidades de treino cognitivo, com o objetivo de demonstrar cientificamente aquilo que vem sendo percebido na prática diária de alguns profissionais da área: ocorre melhora no desempenho em tarefas e habilidades que não foram treinadas, por generalização (ou transferência) do ganho obtido em tarefas treinadas, via plasticidade cerebral. Nikolaidis(16) relata resultados animadores de plasticidade parietal após treino com videogames e oferecem sugestões para futuras pesquisas de treino cognitivo.

O interesse das pessoas em melhorar sua performance cognitiva parece estar presente desde sempre em nossa história e aumenta cada vez mais. Atualmente, é tão grande a procura por esse tipo de atividade, tanto por parte dos jovens quanto das pessoas de meia idade ou idosas, que a oferta tornou-se impressionantemente grande. E cresce exponencialmente! Só para exemplificar: em setembro de 2015, ao digitar “tipos de treino cognitivo” no Google, você obtém imediatamente cerca de 450.000 resultados só em português! Se optar por digitar em japonês “脳のトレーニング” (“nou no toreiningu”, o equivalente a “treino cerebral”), obtém-se mais de 1.500.000 resultados. E digitando-se em inglês “brain training”, esse número salta para 24.000.000 resultados!

Mesmo filtrando um pouco a busca e navegando superficial e aleatoriamente por algumas das páginas encontradas, obtém-se uma grande variedade de tipos de atividades para treino cognitivo, tanto para pessoas saudáveis de todas as idades quanto para a reabilitação cognitiva de perdas em diversos graus e comprometimentos. Tais achados contemplam vários tipos de ferramentas, que vão de jogos de tabuleiros a games eletrônicos, atividade escrita, leitura, dinâmicas de grupo, atividade motora e intelectual, individual e coletiva, online ou em aplicativos, testes vários, websites científicos, profissionais, etc. Parte desse material é desenvolvido em parceria com psicólogos e neurocientistas, a partir de estudos e pesquisas na área da cognição, mas a grande maioria não se apoia em estudos cientificamente controlados apresentando, portanto, características mais recreativas e sem controle de resultados.

Infelizmente, essa enorme quantidade de dados não poderia ser explorada nem sequer categorizada convenientemente nos limites deste pequeno trabalho, cujo objetivo é fazer uma primeira investida sobre o tema para tentar conhecer a extensão e variabilidade da oferta, bem como o grau de importância que vem recebendo tanto da população geral quanto da comunidade científica.

Dada a inviabilidade de se realizar uma revisão criteriosa da literatura sobre o tema, devido ao pouco tempo disponível para este pequeno estudo, optou-se por um sobrevôo panorâmico sobre parte dos trabalhos que pareceram mais relevantes dentre o imenso número de resultados obtidos na busca orgânica do Google.

O Quê Melhor Combina Comigo??

Algumas pessoas têm um leque bastante amplo de interesses e uma curiosidade constante acerca das coisas, das pessoas e do mundo. Para elas, o treino cognitivo pode ser fácil e ricamente delineado e modificado, enriquecido continuamente ao longo do processo e este será mais estimulante quanto maior for o número de novas possibilidades que forem surgindo. Sua inteligência e curiosidade tende a buscar sempre o novo. Esta sede por conhecer e saber pode tornar-se uma aliada valiosa durante o trabalho terapêutico.

Outros podem referir um gosto por pouquíssimas coisas ou preferir comportamentos mais passivos, que não demandem muito empenho com atividade nem motora nem intelectual. Para essas pessoas, o contato pessoal, em que atividades dialógicas adequadamente planejadas produzam vínculos afetivos eficientes, tendem a ser mais estimulantes e potencialmente eficientes para produzir adesão ao tratamento e abertura de outras possibilidades mesmo dentro de um repertório pessoal restrito.

As sessões iniciais do processo terapêutico deverão, portanto, ser dedicadas a construir uma boa qualidade de vinculação com o paciente, a investigar sua trajetória de vida, sistema de crenças e valores, suas expectativas em relação ao tratamento, a informá-lo sobre as probabilidades aumentadas de sucesso em função de sua adesão e colaboração durante o processo, além de muni-lo de importantes dados acerca dos fatores que poderão influenciar o bom andamento e o resultado de todo o trabalho. Isso feito, informá-lo sobre as possibilidades de modelos de treinamento, suas características e objetivos, para que ele participe ativamente da seleção daqueles que mais lhe agradam.

Sabe-se que a qualidade do sono afeta diretamente o funcionamento da memória, tanto no processamento de novas informações quanto na recuperação de dados armazenados. Sendo tão importante esse fator, deve-se começar estipulando o melhor horário da sessão de treinamento para cada pessoa, em função do período do dia em que ela sente que está mais alerta e descansada.

Vários estudos mencionam ainda outros possíveis fatores intervenientes como preditores de melhor desempenho cognitivo, tais como prática regular de atividade física, alimentação adequada, nível adequado de vitamina D, baixos níveis de ansiedade e estresse, bom humor e práticas de meditação, convívio social, dentre outros. Por isso, identificar a presença dessas e outras características no dia-a-dia do paciente pode ter grande importância para ajudar a construir um programa de treinamento mais eficiente.

Cada pessoa é única e escolhe como se divertir

1Encontrar uma forma prazerosa de treinar as habilidades que sofrem declínio com o passar dos anos pode ser o diferencial que possibilitará ao paciente literalmente divertir-se enquanto se cuida, permitindo-se usufruir sem culpa, peso ou pressão, de atividades recreativas ou intelectuais, mecânicas, sensoriais, culturais, etc.. ou ainda uma combinação de algumas delas desenhada exclusivamente para ele.

Sempre que possível, e particularmente quando tratar-se de paciente que já apresenta comprometimento cognitivo leve (CCL), a estimulação cognitiva deve iniciar o quanto antes, para que se consiga manter as funções cognitivas preservadas e compensar aquelas que já começaram a sofrer declínio. Identificando-se corretamente quais as áreas em que houve declínio, enfatiza-se o treino focando mais especificamente essa área para que o paciente obtenha o desempenho esperado para sua faixa etária e nível de escolaridade.

Uma opção interessante de intervenção estruturada e individualizada é o modelo proposto por Oliveira et al, descrito no capítulo 21 in Santos(23). Enfatiza, prioritariamente:

  • Orientação temporal e espacial
  • Atividades de atenção
  • Conteúdo educacional sobre memória e/ou outra função cognitiva
  • Desafios de memória
  • Estimulação das várias funções cognitivas
  • Incluir atividades lúdicas, relatos motivadores e promover a descontração

Este modelo de intervenção pode ser facilmente adaptado ao gosto pessoal do paciente, personalizando-se o tipo de recursos a serem utilizados durante o programa de treinamento para cada caso.

Bem Só e/ou Bem Acompanhado

Existe uma tendência entre os profissionais de saúde de valorizar o convívio social como importante fator preditivo de saúde e bem-estar. É natural pensar que uma convivência social gratificante, a interação afetiva e harmoniosa com familiares, a presença de amigos acolhedores e praticamente quase todas as manifestações positivas de relacionamento humano sejam geradoras de bem-estar. Até porque quem vivencia esses relacionamentos nem sequer precisa pensar sobre isso, porque sente que é assim. Até aí, tudo bem. O problema é que o inverso também ocorre: há uma tendência bastante grande de interpretar negativamente a qualidade de vida das pessoas que vivem só, como se todas as pessoas sós fossem necessariamente solitárias e menos felizes. E vários achados em pesquisas acabam colaborando com essa percepção, visto que, de fato, têm detectado que o grau de satisfação pessoal tem sido maior para pessoas que vivem com um cônjuge, assim como para as que praticam esportes regularmente(12).

Nem todas as pessoas vivem a situação de poder desfrutar de relacionamentos de qualidade (segundo seus próprios critérios), seja por perda de interesse na trivialidade de algumas formas de convívio social, seja pela presença de déficit de habilidades sociais ou porque seu nível de exigência faz com que seja muito seletiva na escolha de parceiros, etc. O fato é que algumas pessoas aprendem a viver bastante bem ainda que sós e, dependendo das opções de que dispõem num dado momento, preferem estar sós do que acompanhadas, sentindo-se felizes, ou seja, felizes segundo sua própria percepção! Outras, ainda, conjugam bastante bem as duas possibilidades: são sociáveis e agregadoras, mas também gostam de estar sós porque encontram prazer desfrutando de sua própria companhia e, portanto, alternam essas duas possibilidades ao longo de suas vidas.
stock-photo-82294227-senior-man-sitting-on-floor-using-smart-phone-textingNão há consenso quanto ao conceito de felicidade, mas a sensação é conhecida e desejada por todos, assim como é obtida por diferentes meios e produz diferentes graus de satisfação, variados tempos de duração, parecidas mas não únicas formas de manifestação. É diferente de alegria, embora ambas possuam componentes comuns. É diferente de prazer, ainda que ambos se confundam em algum momento. Tem muito a ver com grau de satisfação pessoal, embora satisfação pessoal não a defina completamente. É um estado. Ou, se muito breve, um traço. É se sentir dono da situação, no controle da própria vida. É se sentir bem. Não é rir, porque mesmo sem estar rindo é possível estar se sentindo pleno. Relaciona-se a afeto e cognição.

Mas, importa mesmo que se defina o que é felicidade?

3Certamente, sentir-se bem é o que importa! E não há definição ou teoria que necessariamente satisfaça os critérios de todas as pessoas. Daí a dificuldade – ou irrelevância – em defini-la. Porque a única coisa que importa para o indivíduo é que ele se sinta bem; e isso ganhou um nome poderoso e consensual para descrever o que cada um sente quando está bem, sejá lá o quê ou como seja essa sensação: Chama-se “bem-estar subjetivo”. Ficou tão importante que ganhou até sigla: BES. E vem sendo estudado sistematicamente.

Embora a definição de BES valorize a percepção individual e subjetiva da vida como positiva, os profissionais de saúde, influenciados pelos estudos demonstrando que a maioria das pessoas com alto grau de satisfação com a vida não são solitárias, esquecem-se de ler que trata-se da maioria e não de todos, ou seja, há, sim, pessoas que vivem sós cujo bem-estar subjetivo é plenamente satisfatório por ser fruto de sua própria escolha e não uma imposição ou resultado de infortúnios.

Por considerar o bem-estar subjetivo (na forma do relato do próprio paciente de como é que mais lhe agrada viver) como fator preponderante na avaliação do que é mais adequado para ele, deduz-se que a imposição de convívio social ou mesmo da prática de atividade física, (embora recomendáveis para a maioria da população e na maioria dos casos) seria negativa para o indivíduo que declarasse num dado momento preferir atividades individuais e/ou mais passivas.

Assim, para fins de abordagem terapêutica com vistas ao desenvolvimento cognitivo, não convém eliminar a possibilidade de se realizar intervenção individuais e solitárias, caso seja esta a única alternativa viável para um dado paciente num dado momento. Como parte do tratamento, atividades menos solitárias poderão ir sendo estimuladas ao longo do processo, no ritmo e intensidade que o paciente for permitindo, sem desrespeitar os limites por ele colocados.

O Que É Que Há

A lista a seguir é um pequeno apanhado, aqui usado como amostragem apenas, mas suficiente para oferecer uma ideia da imensa quantidade de material disponível para aparelhar o profissional de saúde interessado em planejar um programa de treinamento cognitivo rico de possibilidades, com vistas a personalizar seu trabalho de modo a melhor atender seu paciente.

Livros e papers de autoria de profissionais especializados em Gerontologia, neurociência ou áreas afins, que apresentam boas sugestões de atividades para treino cognitivo:

  • Estimulação Cognitiva em idosos com comprometimento cognitivo leve e doença de Alzheimer: uma abordagem individualizada e em grupo: cap. 21, p. 135(23).
  • Oficinas Estimuladoras: cap. II, p. 56(2).
  • Intervenção Cognitiva para pacientes portadores de demência do tipo Alzheimer: cap. 16, p. 259(19).
  • Train your brain – 60 Days to a Better Brain – toda a obra é composta de cálculos mentais e exercícios diversos para turbinar o raciocínio(11).
  • Intervenções Cognitivas para o Aprimoramento da Memória em Idosos com Envelhecimento Cognitivo Normal: p. 73 e apêndices(6).
  • Desenvolvimeno de Estimulação Cognitiva para Adultos Idosos(3).

Webpages – Pequeno apanhado para ilustrar a variedade de ofertas na internet. São basicamente páginas de propriedade de instituições ou profissionais especializados em Psicologia, Gerontologia, neurociência ou áreas afins, que apresentam boas sugestões de atividades, que podem ser úteis para assessorar o profissional de saúde no trabalho com o desenvolvimento cognitivo de seu paciente. Alguns deles disponibilizam a própria atividade online, com destaque para o primeiro item da lista, o Hospital do Futuro, que se propõe a atuar como ferramenta tecnológica na área da reabilitação cognitiva, instrumentalizando os profissionais de saúde que acompanham doentes com problemas cognitivos a prescrever sessões diárias de treino altamente específicos e adequados aos déficits específicos de cada paciente:

http://hospitaldofuturo.com

http://oficinadoaprendiz.com.br

http://reab.me

http://fazendoeuaprendo.com.br

http://pt.slideshare.net

http://yourbrainmatters.org.au

http://lumosity.com

http://noticias.universia.com.br

http://health.harvard.edu

https://hbr.org

http://forbes.com

http://cognitivaemotora.com.br

http://treinocognitivo.com.br

http://superaonline.com.br

Aplicativos: Trata-se de jogos ou programas de treinamento e prática com vistas a aumentar a velocidade de processamento e desenvolver habilidades nas várias atividades praticadas, como raciocínio lógico, memória, habilidade visomotora, etc. Em sua maioria, encontram-se disponíveis para download na AppStore e na PlayStore, o que facilita o uso em dispositivos móveis esteja a pessoa onde estiver. Alguns são projetados especificamente para rodar em smartphones e tablets e outros rodam também em computador ou consoles de videogame:

  • Brain Age – Desenvolvido pelo neurocientista japonês Ryuta Kawashsima e disponível para jogar no portátil Nintendo DS
  • Brain Train Edu GoMatch! ABC
  • Brain Train Edu Recall Wiz!
  • Brain Trainer – Premium Edition – Brain and Coordination Exercises
  • Caça-Palavras
  • Imentia
  • Lumosity Mobile
  • Matleta – Math Athlete
  • Mimir Mental Math
  • More Brain Exercises with Dr. Kawashima HD – Também desenvolvido pelo dr. Ryuta Kawashsima
  • NeuroNation Memory Training
  • NiceIQ – Scientific Brain Training
  • Peak Jogos para o Cérebro
  • ShockSheep
  • Simple Senior Phone
  • Stimulus – Smart Yoga Trainer
  • Sudoku
  • Test My Memory
  • Train Your Brain Jogos

4

Esta pequena lista de ferramentas com tecnologia digital apenas amplia o vasto universo de possibilidades instrumentais do terapeuta, particularmente ao deparar-se com o paciente cujo estilo de vida contempla o uso diário de recursos da contemporaneidade, com gosto por tecnologia e curiosidade a respeito do novo. São itens a serem acrescentados ao já extenso e criativo repertório de intervenções de que dispõe o profissional de saúde, especialmente o psicogerontologista, preparado para desenvolver adequados (no sentido de ser leve, agradável e prazeroso, além de eficaz) programas de estimulação cognitiva de modo personalizado.

Considerações Finais

Multiplicam-se os estudos com a finalidade de compreender melhor os mecanismos neurológicos envolvidos na plasticidade cerebral, buscando demonstrar que o declínio cognitivo pode ser desacelerado e prevenido, ou estancado e compensado quando já estiver parcialmente comprometido. O resultado dessas investidas tem sido um interesse cada vez maior no desenvolvimento de produtos para preservar e turbinar a capacidade do cérebro. E, uma vez demonstrado que o prazer e a adesão espontânea a uma atividade são fatores determinantes para o seu êxito, a maioria dessas novas ferramentas, muitas delas educativas, tomam a forma de jogos e atividades de entretenimento, que divertem enquanto ensinam ou treinam. Daí sua relevância como recurso terapêutico em programas de estimulação cognitiva, por sua particularidade de agregar divertimento e descontração enquanto trabalha as demandas de tratamento que o paciente traz.

A estimulação cognitiva pode ser realizada juntamente com o processo psicoterapêutico do idoso, imediatamente após o diagnóstico do seu perfil cognitivo.

O atendimento psicoterapêutico destinado ao idoso deve buscar beneficiá-lo globalmente, de modo a ajudá-lo a resgatar sua autoestima, motivação e bom nível funcional. Essas aquisições dependem, além de outros fatores, da integridade de suas funções cognitivas que, uma vez comprometidas, influenciam direta e negativamente nas AVDs (atividades da vida diária) comprometendo a qualidade do autocuidado, mobilidade, alimentação, etc.. e AVDIs (atividades instrumentais da vida diária), limitando a autogestão, independência e autonomia.

5Um processo psicoterapêutico bem sucedido é aquele que consegue despertar (ou desenvolver) possibilidades de transformação, desejo e crença na própria capacidade de superação, motivação para a descoberta – ou redescoberta, se esquecidas ao longo do tempo – das potencialidades adormecidas dentro de cada um. Preservar a própria capacidade cognitiva para seguir vivenciando o estilo de vida que mais condiz com o próprio gosto ao longo da vida é um privilégio valioso. E essa possibilidade mostra-se acessível também para aqueles poucos babyboomers que aprenderam cedinho a conviver com a tecnologia e não prescindem dela no seu dia-a-dia, por terem se habituado a utilizá-la como sua principal ferramenta de trabalho e meio para resolução de problemas. E, a despeito de constituírem minoria entre a população idosa, também merecem ter suas peculiares preferências tecnológicas contempladas durante o seu tratamento.

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