Como evitar os excessos que atrapalham a minha vida?

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Por Mariuza Pregnolato

“Tudo que é demais faz mal, até remédio” era uma das frases prediletas de minha avó. Se ela vivesse nos dias de hoje, imagino que estaria assustada com a diversidade de excessos que estão levando as pessoas a se perderem, vivendo num emaranhado de complicações de toda ordem: excesso de alimento, de dieta, de musculação, de inatividade física diante das telinhas, do celular, de cirurgias plásticas; excesso de trabalho, de sexo, de compras, de bebidas, de drogas, de cigarro, enfim, uma lista interminável de atividades compulsivas e geradoras de sofrimento físico e emocional, várias delas acontecendo ao mesmo tempo.

Já é sabido que o excesso é um gerador de sofrimento. Então por quê as pessoas tendem a se comportar de maneira descontrolada e compulsiva?

Bem, isso ocorre principalmente porque as conseqüências negativas da repetição contínua só aparecem a médio e longo prazo, ao passo que o prazer obtido por determinadas atividades é imediato. Neste caso incluem-se as compulsões que, num primeiro momento, proporcionam uma sensação agradável, como comer, beber, comprar, fazer sexo, etc. Mas há também aquelas ligadas a crenças e valores pessoais, do tipo “tenho que trabalhar duro para chegar lá”, como ocorre no excesso de trabalho, de musculação, etc. Nestes casos, a pessoa acredita estar agindo da maneira correta para atingir seus objetivos e não percebe que, excedendo-se, não terá saúde e disposição suficientes para usufruir dos resultados que porventura vier a obter.

É importante observar que, quando você se comporta repetidamente de um determinado modo, você está eliminando a oportunidade de explorar novas possibilidades e empobrecendo o seu repertório comportamental.

Na raiz das compulsões está a famigerada ansiedade, que leva você a reagir automática e impensadamente diante de qualquer desconforto ou sofrimento. O que é preciso compreender é que a ação compulsiva não resolve a ansiedade (que é, por si só, o sintoma de que algumas áreas de sua vida não estão bem resolvidas). Ao contrário, produz um pequeno alívio imediato para voltar a atacar novamente, ao primeiro sinal de desconforto. Embora a ansiedade patológica deva ser tratada mais profundamente – e a forma mais eficiente de fazer isso é através da psicoterapia – você poderá melhorar muito a sua qualidade de vida se lançar mão de técnicas de variabilidade comportamental. Isso se consegue através da disposição sincera de ativar sua curiosidade no sentido de aprender novas formas de se comportar diante das mesmas situações. Em outras palavras, fazer diferente.

“Adoro ficar jogando, navegando ou o que for à noite na cama, mas não largo meu tablet. Fico horas a fio ali, até cair de sono. É relaxante e prazeroso para mim. É verdade que às vezes fico me sentindo um idiota por ter perdido tanto tempo e dormido menos do que precisava, mesmo porque deveria ter feito outras coisas que estão se acumulando e complico o meu dia seguinte. Mas e daí, que mal há nisso?” Mal nenhum, poderíamos responder, se você não se incomoda de se sentir um idiota, como disse que se sente, e se também não dá importância para as tarefas que deixou acumular. Ou você gostaria de sentir-se melhor? Se a resposta for sim, faça mais por você. Estou certa de que você merece gostar do que vê quando olha para si mesmo. Jogue seus jogos prediletos, navegue e interaja, sim, mas estipule um tempo que te pareça razoável para isso, de modo que esse prazer momentâneo não atrapalhe a sua vida.

É possível encontrar um caminho para equilibrar as compulsões. É altamente recomendável que você se dedique a refletir sobre isso. O que você deseja para si mesmo: ter algum controle sobre a sua ansiedade e os seus hábitos, escolhendo aqueles que te fazem bem de verdade ou deixar-se levar pelo impulso da gratificação imediata para, após um breve prazer, passar o resto do tempo se sentindo fracassado?

Em primeiro lugar, seja sensível e descubra se você sente-se bem e se está feliz sendo como é. Se estiver, ótimo. Enquanto você estiver de bem consigo mesmo, não há porque preocupar-se. Mas se você estiver insatisfeito, visualize a imagem que você quer ter e o que te faria feliz. Em seguida, descubra o que é preciso fazer para chegar lá e faça isso por você, numa dose planejada, que não tenha características viciantes ou compulsivas. O seu bom senso te dirá qual a medida melhor para você. Vença a ansiedade de querer tudo imediatamente e trabalhe para conquistar o seu objetivo, passo a passo, curtindo o que faz. Tente suportar a frustração de abrir mão de um vício ou hábito instalado e faça pequenas pausas para relaxar ou mudar de foco, quando perceber que está, já há algumas horas, concentrado na mesma atividade. Para isso, você pode dar um jeito de premiar-se a cada vez que conseguir modificar seu comportamento de modo satisfatório. Converse com seus amigos sobre as suas dificuldades e caminhe dentro do seu melhor ritmo, reconhecendo e aprendendo a lidar com seus próprios limites. Seja leve.

Compreenda que modificar hábitos é difícil para todos e que você não deve desanimar só porque às vezes falha nas suas tentativas. Evite as frases e pensamentos do tipo “não consigo”. Eles são limitantes porque o seu cérebro, ao registrar a idéia de constatação de fracasso que você está expressando, paralisa qualquer possibilidade de ação no sentido de resolver o problema. Ao invés disso, diga algo do tipo “do jeito que estou fazendo não está bom, o que eu poderia fazer para melhorar?” Esse jeito de perguntar ativa a sua criatividade para buscar novas estratégias.

Se a nova abordagem também não funcionar, não desanime (lembre-se que a anterior também não estava funcionando) e repita o processo criando novamente uma saída original. Aquilo que não está dando certo tem que ser modificado até que se encontre um caminho que funcione. Sua criatividade dará, com certeza, conta do recado.

Às vezes as pessoas se frustram ao ler as dicas dadas por psicólogos, em artigos sobre qualidade de vida, porque ali tudo parece tão simples e fácil e, no entanto, no momento de aplicar aqueles conselhos em suas próprias vidas, vêem-se diante de dificuldades aparentemente intransponíveis, até mesmo para identificar o que é que está errado. Acontece que, quando estamos mergulhados no problema, fica mesmo difícil de enxergar, sozinhos, nossa atitude muitas vezes auto-sabotadora. Nosso aprendizado e educação familiar nos proporcionou um padrão de comportamento que já não é suficiente para abarcar toda complexidade de nossa vida atual e, exatamente por estar instalado um padrão, não sabemos como fazer diferente. É nesse sentido que a ajuda profissional torna-se valiosa porque propicia o auto-conhecimento, desenvolvendo o potencial ainda não realizado que as pessoas trazem dentro de si. Ser capaz de buscar ajuda é, ao mesmo tempo, uma atitude corajosa e humilde. Não é para qualquer um, é parar pessoas capazes de reconhecer seus próprios limites, mas que não se satisfazem com o tanto que aprenderam.

Lembre-se sempre que a vida que nós levamos é conseqüência das escolhas que fizemos em nosso dia-a-dia até agora. E tudo é escolha. Até não escolher é uma escolha, talvez a mais perigosa de todas. Isso porque nos deixa à mercê dos acontecimentos. Escolha orgulhar-se de você mesmo. Você experimentará a alegria de estar bem consigo mesmo, além de ver que transformou-se num lindo modelo para as pessoas que o rodeiam.

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