Carnaval de todos

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Por: Mariuza Pregnolato

Uma das festas mais aguardadas no Brasil, os feriados de carnaval mobilizam – ou imobilizam, não importa, o fato é que afetam – praticamente todas as pessoas e setores de atividade. Democrático, no carnaval ricos e pobres podem brilhar nas passarelas dançando, cantando e extravasando suas angústias do ano todo. A energia que se desprende de milhares de pessoas sambando juntas ao ritmo da bateria provoca um efeito altamente contagiante.

Uma multidão funciona como mente grupal e esta tende à inconsciência porque nela as pessoas interagem com emoção e, ao mesmo tempo em que compartilham, amplificam a energia do grupo. Nessa situação, as pessoas ficam expostas muito mais aos seus instintos, consequentemente obstruindo a atividade racional. Esse efeito é um fenômeno muito estudado pela Psicologia Grupal. Ele pode ser perigoso quando tratam-se de multidões de caráter ocasional, porque reduz drasticamente a capacidade de avaliação dos indivíduos, levando-os a se comportarem irrefletidamente.

Num desfile ou baile de carnaval, porém, em virtude da sintonia grupal ocorrer em torno do ritmo e unicamente em forma de expressão corporal e canto, cada pessoa, embora submetida à emoção do grupo, limita-se a desfilar ou dançar, a exibir-se como sambista. Seu único compromisso é com a sensação de se entregar à alegria. Quando dissolvida numa multidão, a pessoa se permite ser mais inconseqüente, vivendo com intensidade a emoção do momento.

Em meio a esse rebaixamento da autocrítica e do julgamento em geral, torna-se muito fácil conectar-se com outras pessoas que estão envolvidas pelo mesmo clima. Talvez essa seja a explicação para a ocorrência do grande número de relacionamentos apaixonados que começam e terminam durante o carnaval. O casal entra rapidamente em sintonia num momento em que ambos estão mergulhados numa atmosfera de prazer, exibicionismo e estimulação sensorial, muitas vezes sob o efeito do álcool ou outras substâncias. Ocorre uma identificação que não pede maior aprofundamento das características individuais, razão pela qual, passada a situação indutora do comportamento que os aproximou, cada um dos parceiros se vê diante de um desconhecido.

São poucos os casos de relacionamentos que se estendem além do carnaval porque o ponto de partida desse encontro já pressupõe apenas diversão descompromissada por parte de ambos os parceiros. Entretanto, como alguns crêem valer a pena tentar um aprofundamento na relação e seguem adiante, criam a possibilidade de se conhecerem melhor e aí, sim, nasce a troca afetiva entre seres individuais, a conexão de um com o outro.

O carnaval, como qualquer outro evento em nossas vidas, é aquilo que fazemos dele: Pode ser um período de intensa atividade, de descontração, de recolhimento, de exaltação, de descanso, de reflexão ou mesmo de fuga. O leque de possibilidades é amplo e cada um pode encontrar nesse feriado prolongado aquilo que mais lhe agrada.

Há grupos nitidamente radicais: Os carnavalescos convictos esperam essa festa com grande ansiedade e entregam-se a ela sem reservas, vivendo quatro dias de pura excitação, distanciando-se completamente dos problemas do dia-adia.  Para eles, os meses que antecedem a grande festa é de preparo: planejar a fantasia, contribuir com sua escola, ensaiar para o desfile, etc.. porque vêem no carnaval expansão, alegria e festa.

No outro extremo estão aqueles que vêem no carnaval o descontrole dos sentidos, a exacerbação desenfreada dos instintos, a liberação da animalidade, dos vícios e da sensualidade. Como se para exorcizar esses demônios, esse grupo tende a voltar-se para retiros espirituais, de modo a eliminar totalmente qualquer possibilidade de contato com essa festa profana e conectar-se com seus iguais no repúdio à liberação que lhes é aversiva. Para estes, o momento é de recolhimento, de fortalecer suas crenças.

Entre esses dois polos diametralmente opostos, porém, situa-se a maioria das pessoas: as que vêem o carnaval como um acontecimento dentre tantos outros, atribuindo-lhe uma importância relativa. É muito interessante observar que, para esse terceiro grupo, o número de opções é muito maior: Trata-se de um feriado prolongado do qual poderão usufruir de acordo com seus desejos. Alguns programam viagens, outros acompanham o carnaval à distância ou em festas menores no interior, enquanto alguns preferem aproveitar esses dias para descansar.

Amar, sambar, descansar, orar, trabalhar… O menu é farto e cada um pode fazer a sua escolha. Você já fez a sua?

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