Anorexia

Print Voltar

Por: Mariuza Pregnolato

A anorexia é uma doença insidiosa e grave, dificilmente reconhecida pelo próprio anoréxico, pois ele perde a capacidade de identificar as disfunções que está, gradativamente, impondo ao seu próprio corpo.

Emocionalmente envolvido na busca de uma imagem corporal idealizada, o anoréxico torna-se obcecado pela perda de peso e massa corpórea, o que faz com que sua percepção do próprio corpo fique distorcida. O resultado dessa distorção perceptiva é um desejo insaciável por ser magro, de modo que ele nunca conseguirá satisfazer-se com a perda de peso que conseguiu, por mais magro que esteja.

O primeiro conjunto de sintomas que pode despertar a suspeita de anorexia – e que devem ser observados pelos familiares do anoréxico – envolve os seguintes sinais:

  • perda de peso em curto espaço de tempo;
  • uso sistemático de laxantes e/ou diuréticos;
  • preocupação excessiva com o corpo, referindo sentir-se gordo quando é visível que não está;
  • prática exagerada de exercícios físicos;
  • interesse obsessivo por alimentos em geral e por suas propriedades calóricas em particular;
  • amenorréia (perturbação ou interrupção do ciclo menstrual);
  • reduzido interesse pelo contato físico e sexual;
  • mentir a respeito da própria alimentação;
  • prática sistemática de longos jejuns ou dietas radicais;
  • apatia ou estado depressivo;
  • tendência a isolar-se, reduzindo seu círculo social ou a tolerância à socialização;
  • irritabilidade;
  • ansiedade anormal em relação ao próprio histórico de humor;
  • recusa a buscar ajuda profissional, negando estar com problemas

Os sintomas tornam-se mais evidentes e ainda mais sérios conforme vai ocorrendo o agravamento do quadro. Nesta situação o tratamento é mais longo e o processo mais difícil de ser revertido. Isso ocorre devido à falta de cooperação do paciente que, nesse estágio, já sofre de dismorfia, isto é, uma grave distorção da percepção, que gera a incapacidade de avaliação adequada, tanto estética quanto funcional, em relação ao próprio corpo. Nesta fase ele já apresenta todos (ou a maioria) dos sintomas e complicações abaixo, como conseqüência da desnutrição:

  • magreza excessiva (é possível “ver” seu esqueleto sob a pele);
  • hipotensão (pressão arterial muito baixa);
  • intolerância ao frio;
  • osteoporose;
  • obstipação intestinal (intestino preso);
  • dificuldade de ingerir alimentos;
  • amenorréia;
  • sensação de cansaço e fraqueza com mal-estar, vertigens e confusão mental;
  • desequilíbrio hormonal com possível infertilidade;
  • unhas quebradiças;
  • queda acentuada e contínua dos cabelos;
  • pele ressecada e sem tônus;
  • bradiquardia (batimento cardíaco baixo);
  • perda da libido; etc.

De qualquer modo, é importante que o diagnóstico seja feito por profissional qualificado, que pode ser, num primeiro momento, um endocrinologista, clínico geral, psicólogo ou psiquiatra. É aqui que começa a maior dificuldade para se tratar um anoréxico: Ele não reconhece que está doente e, quando reconhece, recusa o tratamento ao compreender que terá que ganhar peso. Portanto, o primeiro desafio é conseguir fazer com que o paciente busque ou seja convencido pela família a aceitar ajuda profissional. Conseguido esse primeiro passo, o segundo desafio é conseguir que ele se mantenha aderente ao tratamento o que, em alguns casos, exige a constante atenção, tolerância e dedicação da família. Os familiares devem tratá-lo afetuosamente, sempre lembrando que trata-se de alguém que está sofrendo um mal que poderá levá-lo à morte, mas que neste momento ele não é capaz de acreditar nisso.

Uma vez confirmado o diagnóstico de anorexia, deverá dar-se início ao tratamento, cujas características dependerão da gravidade do quadro. Nos casos mais severos, pode-se optar pela internação do paciente, submetendo-o a uma dieta hipercalórica num primeiro momento, com a finalidade de devolver ao seu organismo a capacidade de funcionamento adequado. Com a atenuação do quadro, introduz-se reeducação alimentar, psicoterapia e cuidados médicos em relação às complicações detectadas no quadro.

A conscientização da gravidade do problema, bem como a participação e colaboração da família no tratamento é de importância fundamental. Às vezes é necessário que se façam sessões de terapia familiar, quando for observado que a dinâmica familiar está fortemente presente nas causas da doença. Na maior parte dos casos a psicoterapia individual é suficiente.

Porém, é importante ter em conta que a desinstalação de um quadro severo de anorexia é um processo lento e gradativo, que não termina no momento em que o paciente readquire sua saúde física. Ele deverá continuar com o acompanhamento psicológico pelo tempo que for necessário para desenvolver uma auto-estima satisfatória, uma percepção adequada de seu esquema corporal e consiga sentir-se feliz com um corpo saudável e não esquelético. Sem essa solução, ele certamente voltará à condição anterior por não suportar ver-se ‘gordo’ novamente.

Embora haja muita resistência em procurar o psicólogo, o que se observa é que uma vez iniciado o processo terapêutico, o paciente tende a gostar dos ganhos emocionais que começa a ter. Durante a terapia, muitas áreas da psique são ativadas e conteúdos emocionais da história do paciente são acessados em profundidade. Nesse processo ele tem a oportunidade de ressignificar sua história para si mesmo, passo a passo, ganhando mais autoconfiança à medida que vai se conhecendo melhor, valorizando seus talentos e realizando seu potencial latente. Sua percepção mais acurada vai relativizando a valoração excessiva que ele havia atribuído à perda de gordura em detrimento de tantos outros elementos importantes de sua vida. O paciente anoréxico que consegue vincular-se ao processo terapêutico está no meio do caminho para a cura. Sem essa adesão, a reincidência é praticamente certa.

© 2016 | Mariuza Pregnolato - Todos os direitos reservados | Lei do Direito Autoral
A reprodução total ou parcial do conteúdo desta página é permitida sem autorização prévia por escrito da autora
(copyright) para fins educacionais ou informativos, desde que a fonte seja corretamente citada.