Amizade

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WH: Nossas leitoras solicitam orientação sobre relacionamento.

Parece que só eu me esforço…”

Toda boa relação pressupõe a participação equilibrada dos interesses, expectativas, gratificações e preferências das pessoas envolvidas, além do sentimento que as une. Por isso, quando uma amizade, namoro ou casamento passa por uma situação de conflito, em que uma ou ambas as partes se sentem descontentes ou sobrecarregadas, o caminho mais rápido para uma possível resolução é o diálogo honesto e aberto, em que cada um expõe respeitosamente seus sentimentos, desejos, mágoas. Se houver afinidades e uma vinculação afetiva forte entre as duas pessoas, será possível voltar a se entender porque a resolução satisfará a ambas as partes. Mas se uma das duas sente-se desrespeitada, ferida ou injustiçada e não consegue sensibilizar a outra nem consegue compreendê-la, não há como haver harmonia. Se a relação estiver impregnada de insatisfação e agressividade contida, deixará de ser prazerosa e sua continuidade perde o sentido.

Luiza e eu somos amigas desde os 18 anos. Nos conhecemos na faculdade e passamos por ótimos momentos juntas muitos deles envolvendo álcool. Hoje, eu sou casada e com filhos, mas a vida dela não evoluiu muito desde os nossos tempos de beber até cair. Ela já apareceu na festa do meu filho bêbada, pois veio direto de uma outra celebração no bar, e quase derrubou meu filho de dois anos no chão. Quando eu fiquei chateada com isso, ela ficou brava comigo”.

A situação que você vive hoje te pede responsabilidade e foco na família, já a que Luiza vive, parece que não. Penso que não se trata necessariamente de evolução, mas de perceber que algo mudou e aprender a adequar-se às novas circunstâncias. Nenhuma de vocês é a mesma de antes e, se quiserem viabilizar o amadurecimento dessa amizade, precisarão conhecer mais sobre a vida uma da outra, tentar compreender o comportamento de cada uma de uma perspectiva mais ampliada, para evitar rótulos injustos e inúteis, do tipo “ela agora é uma chata” versus “foi ela que não evoluiu”.

Eu estava passando por uma depressão, quando minha amiga mais próxima, Bruna, de repente terminoucomigo no meio da calçada, dizendo que o terapeuta dela aconselhou-a a parar de andar comigo porque eu era ‘tóxicae fazia com que ela passasse mais tempo no consultório falando sobre mim do que sobre ela mesma. Eu nunca mais vi ela desde então e tem sido difícil para mim me aproximar de alguém desde esse episódio.

Conviver com pessoas depressivas às vezes é bem difícil mesmo e é possível que a relação estivesse ficando muito pesada para Bruna que, provavelmente, não soube lidar bem com essa situação. Para que consigamos conquistar a simpatia das pessoas de modo que elas tenham prazer em estar conosco, precisamos tratar nossa tristeza e ganhar vitalidade. Só assim poderemos nos interessar por várias coisas, ganhar brilho no olhar para que tenhamos o que oferecer nas relações. Se nada dou, acabo parasitando o outro e ele tenderá a fugir de mim.

Marcela e eu nos divertimos muito quando saímos, seja indo no cinema, no karaokê, no bar, no shopping… Isso quando eu consigo fazer ela sair comigo. Ela parece que está confortável ficando em casa por um mês inteiro sem nem me ver. Uma noite, eu fiquei tão irritada por sempre ter que ser eu a que planeja nossos encontros que disse que não a chamaria mais para sair, se ela quisesse ser minha amiga, ela que se esforçasse e me ligasse. Ela não ligou.

De acordo com o seu relato, Marcela é uma ótima companhia para si mesma, o que é bastante saudável, aliás. Além disso, curte muito quando você a convida para sair. Penso que está tudo bem, visto que vocês se divertem bastante quando estão juntas, exceto pelo fato de você sentir-se mal porque não gosta de ser a única a convidar. Vejo três caminhos curtos: 1) Entenda que está tudo bem, ela gosta de você, só que não sente falta de sair, é você quem sente; 2) Encontre outras pessoas com quem sair, para não depender somente da companhia dela; 3) Quando não tiver ninguém com quem sair, descubra que poderá passar momentos muito agradáveis fazendo coisas que gosta, em sua própria companhia. É muito bom saber que podemos estar “bem só e bem acompanhadas”.

Depois que eu a ajudei a conseguir um emprego no meu escritório, Melissa e eu ficamos muito próximas muito rápido. Dentro de três meses ela já se mudou para um apartamento perto do meu, começou a ir no mesmo salão que eu e até namorou um dos amigos do meu marido. Então eu perdi o emprego. Tinha uma vaga em outra companhia pela qual me interessei e contei para ela que ia tentar. Ela me incentivou muito mas, sem me avisar, foi atrás da vaga que eu tinha mostrado e conseguiu o emprego para si mesma. Quando eu a confrontei, ela respondeu: “venceu a melhor.”

É muito triste quando nos decepcionamos com as pessoas. A falta de experiência e ingenuidade resultam em dor profunda, mas geram rico aprendizado, porque nos amadurece e ficamos mais sensíveis ao outro, percebendo melhor quem ele é, ao invés de ver nele aquilo que pensamos que ele seja. Melissa foi desleal com você. Eu não chamaria essa relação de amizade, portanto, não vejo o quê consertar. Essa lição deverá ajudar você a, no futuro, selecionar melhor quais são as pessoas que merecem ser incluídas no seu círculo de amizades verdadeiras.

Ana e eu sempre fomos melhores amigas, até ela conhecer um novo grupo de amigos na aula da crossfit. Agora, ela só anda com eles e, nas raras vezes que a vejo, ela fica falando sobre eles. Eu sinto que estamos nos distanciando. Não quero parecer possessiva, mas queria minha amiga de volta! E não quero nunca mais ter que ouvir sobre mais uma aula de crossfit.

Se a crossfit é importante para Ana, ela deve sim treinar e certamente terá muito prazer em estar com pessoas que curtem a mesma paixão que ela! Do mesmo modo, se você não gosta do programa e não tem o menor interesse nem no assunto nem nas pessoas que estão viciadas e só tendem a falar nisso, precisará se respeitar e buscar atividades que lhe dão prazer. É uma pena quando uma mudança que não desejamos surge assim, repentinamente. Ainda assim, vocês poderão continuar se gostando e se encontrando de vez em quando para curtir as afinidades que se mantém, compartilhando seus interesses e novidades, caso desejem; não como antes, não menos amigas, menos companheiras apenas.

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Mariuza Pregnolato em entrevista à revista Women’s Health.

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